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A sutileza dos livros didáticos

Estou lendo o livro O livreiro de Cabul escrito pela jornalista norueguesa Asne Seierstad. O livro conta histórias do dia a dia de uma familia afegã após a queda do regime talibã. Várias coisas têm me chamado a atenção neste livro mas achei muito interessante a descrição dos livros didáticos elaborados pelo regime talibã.
Havia uma preocupação do regime em ensinar as crianças com coisas presentes em seu cotidiano; então ao invés daquelas palavrinhas como b de bola e i de igreja, as crianças aprendiam o alfabeto assim:
J de jihad - que significa o propósito de mundo;
I de Israel - que é o inimigo
K de kalashnikov - nós venceremos
T de talibã
Até na matemática o regime influenciou os livros didáticos. Um exemplo citado no livro:
"O pequeno Omar tem uma kalashnikov com três pentes. Em cada pente há 20 balas. Ele usa dois terços das balas e mata sessenta infiéis. Quantos infiéis ele mata por bala?
Achei muito interessante! E porque não aproximar os nossos livros didáticos do nosso cotidiano?
A de assalto
B de bala (que pode ser perdida ou não)
C de corrupção
...
R de relâmpago (que pode ou nao estar ligado ao sequestro aí de baixo)
S de sequestro
e por ai vai...
E na matemática dá usar e abusar do cotidiano:
"o pai de Joaozinho ganha R$350,00/mês. Se ele tem que pagar aluguel, luz, água, condução, alimentos..." Bom, este tipo de problema não é indicado para crianças que nao conhecem ainda os números negativos.
É melhor sugerir algo como: "um político tinha um patrimônio de 1 milhão de reais em 1998. O seu salário como deputado foi de R$8000,00/mês durante 4 anos. Em 2002 seu patrimônio era de aproximadamente 2 milhões de reais. Como ele fez pra ter um aumento de patrimônio tão significativo ganhando apenas R$8000,00?" É, neste caso entram cálculos de juros, correções, consultorias... É não dá pra criança do primário e ainda faltam dados no problema.
O jeito é manter os livros de matemática contando maças e balas. Tem certas contas difíceis pra uma criança entender...
...e pra mim também.