Skip to main content

Ainda sobre os motivos pra imigrar

Comentando os comentários:



Quando paramos pra pensar nas coisas que acontecem no Brasil, a maioria delas são coisas pequenas que podem até ser ignoradas, como os pais que estacionam em fila dupla ou pegam a sua vaga no estacionamento, ou ainda que te ultrapassam na contramão pra chegar 1 minuto antes de vc. Como diz o Sergio: "uma posição pode fazer muita diferença na pontuação do campeonato".


O grande problema é que quando a gente tenta fazer certinho ainda passa por bobo; e o pior: a gente se sente o verdadeiro trouxa. As vezes as pessoas fazem coisas absurdas e o Eduardo, com apenas 3,5 anos de idade, fica indignado me mostrando. E como explicar pra ele que não sou eu que sou lerda ou boba e sim a outra pessoa que está errada em fazer aquilo.


E quando ele me questiona que o amigo da escola vai solto no carro, olhando pela janela, se divertindo no banco da frente e ele tem que ir amarrado no cadeirão com aquela visão limitada? E como eu explico pra ele que a vizinha que fica martelando o dia todo a nossa parede está errada e que nós não devemos fazer o mesmo do lado de cá porque iria incomodá-la?


As vezes eu me sinto uma besta porque as pessoas fazem o que querem e eu fico muitas vezes me prejudicando pra seguir as regras. E meu filho fica olhando e deve pensar: dane-se as regras, elas só nos prejudicam!


É claro que a população do Canadá é tão individualista e mal educada quanto a brasileira e igual a de qualquer lugar do mundo: somos todos seres humanos e com poucas exceções, somos todos egoista e tentamos nos colocar sempre em primeiro lugar. Qualquer canadense adoraria estacionar em fila dupla pra nao ter que andar muito pra levar o filho na escola. A única diferença é que lá o seu individualismo pode ser livremente vivido desde que não ultrapasse os limites do individualismo do outro.

Quando chegamos aos EUA não tínhamos cadeirão pra transportar o Edu e portanto só podíamos andar com as vans do hotel. A chefe do Sergio veio nos buscar um dia e como não tínhamos cadeirão ela disse: sinto muito, mas não posso levar a criança. A distância era curta, era super cedinho, o carro tinha vidro escuro, mas ela sabia que o risco não compensava.

Outro dia, ainda em Atlanta, seguindo em uma auto estrada eu percebi que o Eduardo estava pegando muito sol e resolvemos parar no acostamento pra cobrir o vidro e protegê-lo. Enquanto eu prendia um pano no vidro vi parar atrás de nós um carro da polícia. O policial desceu e veio me perguntar se estava tudo bem. Eu expliquei o que estava fazendo e ele disse ok mas continuou parado ali me olhando. Quando saímos ele foi nos seguindo ainda por um tempo até sumir tão misteriosamente quanto apareceu.

Pra muitos este tipo de situação fere a privacidade e incomoda. Eu encaro como segurança; não estávamos fazendo nada errado e não me importei nem um pouco com a presença da polícia me vigiando.

Muitos brasileiros que conhecemos lá ficam incomodados por não poder consumir bebida alcoólica nos parques e lugares públicos. Pra quem gosta de uma cervejinha deve ser chato mesmo um churrasquinho com refrigerante. Pra minha família não faz diferença porque não tomamos cerveja, mas os responsáveis acabam pagando pelas pessoas inconsequentes que ultrapassam os limites. Apesar de não concordarem com esta lei específica nenhum dos nossos amigos se arriscou a quebrar a regra. Com o jeitinho brasileiro poderíamos ter inventado uma alternativa, mas o risco não compensava.

É preciso levar em conta, é claro, que estávamos no sudeste dos EUA, exatamente naquela região que perdeu a guerra de secessão e que é muito mais conservadora que o nordeste do país por exemplo. Imagino que muita coisa no Canadá seja diferente, e espero que seja mesmo, mas o que importa é que as regras são claras e têm que ser cumpridas.

Muita coisa me incomodava em Atlanta. A separação entre brancos e negros por exemplo era muito clara. Morávamos em um bairro onde praticamente só moravam brancos e os negros que viamos eram os funcionários de fast food, motorista de ônibus... quem fazia a faxina dos hoteis e dirigia as vans dos hoteis eram os ilegais latinos. Em outros bairros vc só encontrava negros e eles até olhavam pra nós com um certo estranhamento, mas nenhuma ostilidade.

Estudando um pouco a história deles dá pra entender esta separação já que os absurdos de preconceito racial foram "banidos" há muito pouco tempo da região. Só acho que não conseguiram ainda resolver o problema e ao inves da integração a gente vê dois mundos muito separados.

Nós visitamos vários lugares que contavam as histórias daquela época horrorosa da história americana e depois de ver tudo aquilo eu cheguei à conclusão de que no Brasil nós temos um problema de preconceito contra pobre infinitamente maior do que de preconceito contra negros. Mas esta é uma história pra outro post que ainda não tive coragem de escrever pela polêmica que pode gerar.

O fato é que cada país tem a sua cultura, com seus prós e seus contras. Muita coisa se encaixa como uma luva na vida que eu gostaria de oferecer aos meus filhos e muita coisa me causa aflição. O único jeito é analisar as vantagens e as desvantagens e decidir de acordo com seus valores. Para os meus valores o Canadá é a melhor opção no momento.