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Motivos para imigrar

Já faz vários dias que venho pensando no post do Daniel com os seus motivos para imigrar. Já escrevi varias coisas mas ainda nao tinha conseguido convencer a mim mesma que aqueles eram os motivos.


Não gosto muito da idéia de dizer que quero imigrar pra fugir ou pra ser feliz. Não estamos fugindo e somos muito felizes aqui. Então eu acredito que estamos procurando uma Qualidade de Vida que não temos como encontrar no Brasil hj. O problema é que qualidade de vida não tem um significado único e os parâmetros mudam de uma pessoa pra outra. Vou falar um pouco então do que eu considero qualidade de vida e o que estou procurando no Canadá.


Quando fomos convidados em novembro de 2004 a passar 6 meses em Atlanta eu não pensava em sair do país e confesso que embarquei em dezembro do mesmo ano um pouco contrariada. Mas era importante para o Sergio essa experiência profissional e nós sempre acreditamos que não devemos perder as oportunidades que aparecem, então eu fui, prometendo a mim mesma que faria destes 6 meses um período de aprendizado e que ficaria o mais feliz possível porque o Sergio e o Eduardo não mereciam ficar longe de casa aguentando uma chata mal humorada.


Pra minha surpresa, já nas primeiras semanas eu me deparei com uma realidade muito diferente do que eu vivia aqui no Brasil e me encantei.



O Sergio saia do trabalho as 17 horas, vinha para o hotel onde morávamos e já anoitecendo nós três saíamos pra andar pelas redondezas. Havia uma trilha muito perto do hotel que nos levava a um lago; um lugar lindo mas deserto naquele horário. Era tudo tão seguro e tranquilo que podíamos simplesmente apreciar o passeio e a companhia uns dos outros.


A cidade também é cheia de parques; quase um em cada esquina (risos). Tinhamos várias opções pra levar o Eduardo que chegou nos EUA quinze dias antes de completar seu primeiro ano de vida. Oa parques eram super organizados, bem cuidados, limpos... Em todos eles havia um play ground para crianças pequenas, até três anos de idade e outro para crianças maiores. Pode não parecer uma coisa importante mas faz toda a diferença. Para os pequenos os balanços eram fechadinhos, muito mais seguros, os escorregadores menores, tudo era mais baixo e mais fechadinho pra evitar acidentes e todo mundo respeitava. Não tinha grandalhões misturados aos bebês.


Encontramos até um parque surreal que tinha no banco de areia carrinhos, pazinhas, baldinhos e mais um monte de coisinhas que eram do próprio parque e todo mundo brincava e DEIXAVA os brinquedos lá quando ia embora. Os brinquedos todos estavam gastos mas nao tinha uma rodinha faltando, uma alça quebrada, tudo em perfeita ordem. Nunca vi um balanço quebrado, uma corda que escapou, uma pixação; tudo sempre muito bem arrumado e funcionando perfeitamente.


Papel no chão? Latinha caindo pelas janelas dos carros? Faixas e cartazes espalhados pra todo lado? Pedintes? Simplesmente não tinha. A única vez que presenciei uma lata de refrigerante voando pela janela de um restaurante foi quando um amigo brasileiro o fez naquela tentativa de ser engraçadinho (como se tivesse graça).


No Natal, a empresa do Sergio presenteou todos os funcionários com uma linda caixa de bombons e como o Sergio estava companhado, o Edu ganhou uns bonequinhos do Sherek e um carrinho cheio de chocolate em forma de carrinho e eu ganhei uma lata linda de sequilhos e um kit inverno (cachecol, luvas e chapeuzinho). O problema é que o kit era cor de rosa (as americanas adoram essa cor) e eu nao gosto muito. Olhei a etiqueta do produto, descobri a loja onde foi comprado e fui até lá ver o que poderia ser feito. Sem burocracia nenhuma, apresentei o produto e disse que não tinha gostado da cor. O rapaz que me atendeu (nunca me esqueci do rosto dele) já foi logo perguntando se eu queria trocar ou se queria o dinheiro de volta.


Detalhe: eu não tinha a nota, nem imaginava o preço e nada foi perguntado sobre mim, sobre a compra ou sobre qualquer outra coisa. A etiqueta da loja já foi suficiente. Eu disse que era um presente e que eu queria um igual só que de outra cor e ele falou: Procure o que vc quer e depois pode levar direto no caixa pra efetuar a troca.


Eu poderia ter trocado por outra coisa ou ter ficado com o dinheiro. Mas achei tão gentil por parte da empresa se preocupar comigo e com meu filho (nenhuma esposa de funcionario recebeu presente) que resolvi apenas trocar por outra cor.


Ainda no Natal, resolvemos ir pra Nova York já que eu não conhecia. Na véspera do Natal, saímos a noite pra dar uma volta pelas redondezas e comprar um presente pro Eduardo. As ruas estavam lotadas, acho que nunca fiquei no meio de uma multidão como aquela e o engraçado é que não senti medo em nenhum momento. É claro que batedor de carteira tem em todo lugar, mas nós nos sentíamos seguros, tudo muito tranquilo, sem bêbados, sem gente mal encarada, sem pedintes, sem ameaças.


Ficamos na rua até as 11 da noite quando o Edu, já exausto, "pediu" pra ir pra cama; sem contar o frio congelante que estava. Nos 4 dias que ficamos em Nova york a única preocupação era com o terrorismo(risos). Em todo lugar era um tal de tira e põe casacos e sapatos e revista bolsas... Até o Edu tinha que ser "despido" pra garantir que ele não estava enrolado em bombas. Apesar do tempo que perdíamos e das filas que tinhamos que enfrentar, nos divertimos muito com o que eu chamava de "tira e poe".


E as experências foram se repetindo em todos os lugares que visitamos nesses 6 meses. Praticamente todo final de semana nós pegávamos o carro alugado pela empresa e saíamos pra conhecer algum lugar diferente. Não sei se em toda empresa americana é assim, mas eles achavam que não dava para o funcionário passar o final de semana sem carro e alugavam um carro para nós da sexta feira a noite até o domingo a noite.

O Sergio adora mapas e guias; sempre tinha um lugar com alguma história interessante pra conhecer na região e lá íamos nós. Fomos pra Carolina do Norte e do Sul, Tennessee, Alabama; sempre visitando uma cidade diferente, interessante, aprendendo mais e mais sobre a historia daquele país. Fomos pra Washington DC e pra Filadélfia; tudo com um roteirinho montado pelo Sergio, sempre com muitas histórias, muitas caminhadas, muito cansaço mas muito divertimento também. Na Georgia, onde fica a cidade de Atlanta, conhecemos muitas cidades, sem contar que viramos Atlanta do avesso e em pouco tempo parecia que o Sergio tinha nascido naquela cidade.


O fato é que independente do lugar pra onde íamos, sempre encontrávamos a mesma coisa: estradas maravilhosas, cidades limpas, organizadas, bonitas, muitos parques, muitos lugares pra pic nic, muitos e muitos lugares preparados pra receber a família, muita preocupação com divertimento para crianças e muita preocupação com as liberdades individuais. O tempo todo nós nos sentíamos respeitados, nós nos sentíamos seguros, nós nos sentíamos em casa.

É bem verdade que éramos de certa forma vigiados e em qualquer deslize imediatamente aparecia, saído do nada, um policial, um segurança, um alguém pra nos mostrar até onde podíamos ir, mas como não tinhamos intensão de fazer nada errado não nos preocupávamos e nunca nos sentimos invadidos. Ao contrário, nos sentíamos protegidos.

Com o tempo estes passeios e viagens foram entrando na nossa rotina e eu fui percebendo uma aproximação enorme entre o Edu e o Sergio. Aos poucos fomos nos esquecendo de averiguar se o carro estava mesmo fechado, se os documentos estavam ainda na bolsa, se a máquina fotográfica estava guardada em um local seguro e começamos a nos preocupar com estar juntos, com brincar com o Edu, com conhecer os lugares e suas histórias. Começamos ver as pessoas com outros olhos, fomos nos despindo de preconceitos, fomos ficando mais leves, mais tranquilos, mais soltos.

Fomos perdendo os medos e inseguranças que sempre nos acompanham por aqui; fomos perdendo o medo de estranhos, perdendo o medo de sair a noite ou andar em lugares desertos. Comecei a relaxar e conseguíamos aproveitar muito mais os passeios, os momentos juntos.

LIVRE E RESPEITADA: acho que é a melhor definição de como eu me sentia.


Já disse várias vezes aqui neste espaço e pra quem se interessar em ouvir que voltei chorando pro Brasil e até hj não me reacostumei com o que temos aqui. Dá pra perceber que não é uma questão de ter dinheiro, não é só a violência armada; é uma questão de valores, de respeito, de oportunidades, de estilo de vida.

As diferenças sociais existem em todos os lugares, pobreza também, falta de educação e desrespeito também, violência também... não pensem que estou sonhando com o paraiso na terra e que não tivemos problemas nos EUA ou que acreditamos que não teremos problemas no Canadá.

Ao contrário do Daniel, eu tenho tido uma certa aversão ao Brasil, não consigo mais me anestesiar, me acostumar que as coisas são assim e pronto, aceitar a acomodação das pessoas e principalmente aceitar as pequenas corrupções que vão se tornando parte do nosso dia a dia: as carteirinhas de estudante falsas, a caixinha pro guarda, os guardadores de carro, todas as pequenas extorsões a que estamos expostos...

Eu poderia lutar contra tudo isso e fazer alguma coisa pra mudar, tem muita gente fazendo isso e conseguindo resultados. Eu fico feliz que estas pessoas existam e no fundo eu bem que gostaria de ter a força delas, mas confesso que desisti de acreditar; cansei de tentar explicar ou tentar entender.

Quando penso nos meus filhos, nos riscos, nos desafios de educá-los, nos sonhos que tenho pra eles, me sinto na obrigação de dar a eles esta oportunidade única que surgiu na nossa vida que é a opção pela imigração. Esta outra maneira de ver as coisas e viver as coisas. Este outro estilo de vida que pra nós é sinônimo de qualidade. Acho que a única coisa que nos seguraria aqui seria a nossa família. Infelizmente não se pode ter tudo e tivemos que escolher.

PS: Tenho procurado não ficar pixando o país o tempo todo e não ficar escrevendo aqui muita coisa que vejo, sinto, penso... este blog não é um blog denúncia e não tem por objetivo justificar nossa decisão de ir embora. Apesar de não estar feliz com os rumos que o país está tomando e não concordar com as politicas, os acontecimentos, enfim, com muita coisa, ainda assim amamos o Brasil, nossa história está aqui, muitas pessoas que amamos também.