Skip to main content

No kids: 40 razões para não ter filhos

Este é o título do livro de Corinne Maier, psicanalista e economista francesa. Segundo reportagem da BBC Brasil o livro está na lista dos mais vendidos na França e a autora fala dos "malefícios" que os filhos trazem pra vida das pessoas.


Confesso que fiquei curiosa para lê-lo porque sou tão convicta em relação a minha opção por ter filhos que acho até interessante a idéia do livro. Até porque gostaria de tentar entender o fracasso dela como mãe, já que tem dois filhos adolescentes.


Achei muito provocativo mas não discordo totalmente dela. Muita gente opta por ter filhos somente porque um casal sem filhos é muito cobrado. Eu fiquei dois anos casada sem filhos e sei como é: todo mundo fica perguntando sobre o herdeiro. É uma pressão bastante forte.


E nem todo mundo está mesmo preparado para todas as mudanças que um filho provoca na vida da gente e nem está disposto a mudar de vida por causa de uma criança. É mesmo verdade que o meu casamento mudou muito depois do nascimento do Eduardo e a cada dia muda mais. Eu e o Sergio estamos satisfeitos com as mudanças e já estávamos esperando que elas acontecessem. É bem verdade que com as crianças temos que ter ainda mais cuidado para o casamento não virar uma irmandade e conversamos muito sobre nossa relação e o que precisamos fazer para que apesar das crianças continuemos sendo um casal e tendo alguns momentos independentes delas.


Imagino que na Europa os filhos alterem ainda mais a vida dos casais porque não é fácil encontrar instituições baratinhas ou pessoas pra transferir a responsabilidade. Lá os pais são meio obrigados a assumir de verdade a maternidade/paternidade e consequentemente são obrigados a mudar suas vidas. Aqui no Brasil as coisas são bem mais simples. Os casais têm a sua disposição multiplas escolhas pra manter suas vidas como eram antes do nascimento dos filhos: tem uma escolinha a cada esquina e um monte de gente sem profissão pronta pra se candidatar a cuidar do seu filho, afinal pra trocar fralda e dar comida não é preciso muita experiência.

Só que uma criança não precisa só deste tipo de cuidado. Uma criança exige muito mais de nós, pais, e não dá pra se criar um ser humano saudável física e psicologicamente sem dedicação, sem atenção, sem trabalho. Eu tenho plena consciência de que a maioria dos pais não podem se dar ao luxo de ficar em casa se dedicando aos filhos em tempo integral como eu pude fazer. Muitos casais dependem também do salário da mulher pra manter a casa, mas mesmo trabalhando em período integral é possível estar presente na vida dos filhos, mesmo porque muitas mães ficam em casa o dia inteiro e mal conhecem aquela criança que está alí ao lado delas.

Hoje, com duas crianças em tempo integral dentro de casa (principalmente agora nas férias) e com um barrigão prestes a me entregar mais uma, eu não condeno de forma alguma uma mulher que opte por não ter filhos. Faz muito tempo que não vou ao cinema ou que não faço um passeio a dois com meu marido. Temos viajado muito menos do que fazíamos logo que nos casamos e os passeios em geral estão voltados a um público infantil do que adulto. mesmo quando saímos sozinhos acabamos só pensando neles e ao inves do cinema sempre optamos por loja de brinquedos ou roupas infantis.

Infelizmente alguns amigos se afastaram um pouco porque não é mais possível sair a qualquer hora, ir em qualquer lugar, comer qualquer coisa por ai. Todo passeio tem que ter um planejamento, temos que preparar mamadeiras e lanches, malinha com pelo menos uma troca de roupa. O nosso carro está cheio de cadeirões e nem carona podemos dar mais (e com a Luisa o carro ficará totalmente lotado). Eu não condeno estes amigos e nem acho que eles deixaram de ser amigos. Ter filhos foi uma opção minha e do Sergio e não deles.

Porém em nenhum momento nos lamentamos pelas mudanças. Sentimos saudades de algumas coisas que fazíamos mas elas podem ser substituídas por outras coisas também muito prazerosas. Como sempre na vida, tudo é uma questão de escolha.

Acredito que, como disse a autora, muitas pessoas são mais infelizes depois que têm filhos porque para muitos os filhos são mesmo um inferno, se intrometem em tudo na nossa vida, exigem demais e por mais que vc faça por eles, nunca estão satisfeitos. E apesar de uma vida inteira de dedicação, no futuro eles provavelmente serão mal agradecidos e culparão vc por tudo de ruim que acontecer em suas vidas.

Mas pra mim compensa o risco e eu aprendi com outros pais e filhos que o melhor é aproveitar todos os momentos em que estamos juntos sem esperar nada deles. Eu tento não criar ilusões de como será o futuro deles, tento dar a eles todas as oportunidades, me esforço pra dar sempre bons exemplos, mas ao mesmo tempo procuro deixa-los livres para as próprias escolhas.

Leio diariamente dezenas de blogs de mães e pais falando as maravilhas de se ter um filho. Divido com todos eles esta felicidade infinita que sentimos com as nossas crianças, mas não acho que estas experiências sejam suficientes pra influenciar uma pessoa a ter filhos também. Cada um tem que pensar e ponderar muito sobre o quanto está disposto a se dedicar a uma criança e tem que ter consciência de todas as dificuldades que vai enfrentar nesta dificil tarefa.

Falando assim pode parecer que a vida de mãe é uma prisão e o carrasco é uma criança. Não é bem assim; nunca deixei de fazer nada que quisesse fazer de verdade só porque me tornei mãe. Até fui em show de rock grávida de 8 meses da Helena. A única diferença é que passei a fazer somente aquilo que realmente valia a pena. Considero que as coisas que deixei pra trás não eram tão importantes na minha vida e consigo viver super bem sem elas.

O que eu não entendo é porque a minha felicidade em ser mãe incomoda pessoas como a tal escritora francesa. Mas como uma pessoa que escreve um livro com o título Bom Dia Preguiça, ensinando as pessoas a fazerem menos esforço no trabalho, pode achar bom criar filhos?