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Liberdade extrema

Eu nasci e cresci em um bairro da zona norte de São Paulo que era (e ainda é) muito tranquilo e seguro. Eu chegava da faculdade a 1h da manhã e o perigo era mínimo (ainda assim, o motorista do ônibus esperava que eu entrasse em casa e acenasse que estava tudo bem pra ele ir embora, risos). Mas a faculdade foi na década de 90. Imagine como era tranquilo na década de 80, bem na minha adolescência.


A rua em que eu morava era sem saída e o movimento de carros quase inexistia, mesmo porque o bairro era pobre e quase ninguem tinha carro na época. Com todos estes ingredientes a minha rua vivia cheia de crianças e da minha idade a grande maioria eram meninas. Éramos mais ou menos 10 meninas que moravam na rua ou bem próximo dela com idades muito próximas e que estudavam no mesmo colégio estadual do bairro.


Não sei se pela segurança ou se por pura irresponsabilidade dos pais, a maioria delas entrou para a vida "adulta" com pouquíssima idade. Tinham liberdade total pra fazer o que bem entendessem e ninguem para controlá-las ou orientá-las de alguma forma. Já com 11- 12 anos quase todas tinham seu namorado, chegavam em casa a hora que bem entendessem, fumavam e até bebiam nas "baladas" que frequentavam. Enquanto eu tinha que pedir pra minha mãe pra ir até a esquina, elas já eram donas de seus narizes e decidiam sozinhas onde ir, quando e com quem. Não demorou muito e todas pararam de estudar ou mantiveram a escola como um local pra encontrar os amigos, faltando às aulas ou simplesmente fugindo pelo muro do colégio quando queriam e é claro, acumulando repetências. De todas estas meninas, somente três tiveram uma adolescencia diferente e não preciso dizer que duas destas fomos eu e minha melhor amiga.


Com uma infância "esticada" eu e a minha melhor amiga tinhamos que aguentar estas meninas-adultas fazendo piadinhas porque aos 14 anos ainda brincávamos como criança. Para nos provocar ficavam passando em frente de casa cantando Criança Feliz. Mal sabiam elas que éramos mesmo crianças felizes e tínhamos outros planos pra nossas vidas.


Mas apesar da falta de orientação, da excessiva liberdade que elas tinham, das escolhas duvidosas que fizeram, hj, felizes ou não, todas estão bem, com seus filhos adolescentes, tentando de alguma maneira fazer diferente com eles. Felizmente naquela época o maior risco que corriam era o de uma gravidez indesejada e a ausência dos pais não acarretou danos que comprometessem uma vida relativamente normal hoje.


Então a história começou a se repetir. Uma adolescente com extrema liberdade, fazendo o que bem entende, fumando, bebendo, sem hora pra chegar em casa, faltando da escola, sendo dona do seu proprio nariz. Assim como as minhas "coleguinhas" de infância começou muito cedo a vida "adulta", acho que com 10 anos já tinha se "emancipado".


Agora com 16, estava namorando um menino da favela do bairro. Terminou o namoro com ele e começou namorar um outro rapaz que tinha até carro. A avó (com quem ela vive) estava esperançosa de que fosse um "bom partido".


É claro que o namorado dispensado não gostou da história e em uma confusão por ciumes o atual namorado "bom partido" deu 4 tiros no primo do namorado dispensado. A confusão foi tamanha que a família do moço assassinado está ameaçando a menina porque consideram que ela foi a causadora de toda essa desgraça e a familia do "bom partido" esta ameaçando-a também para que ela não dê o endereço do assassino.


Conclusão: a menina está escondida, longe do bairro, morrendo de medo e a família apavorada.


Infelizmente para estas famílias este modelo de educação sem limites e controles se tornou extremamente perigoso nos dias de hj. Atualmente eu acho que conhecer os amigos e se possivel, a familia dos amigos é muito importante. Saber onde o filho vai, com quem vai, quando e como volta não deve ser considerado invasão de privacidade. Principalmente na adolescencia estar presente na vida dos filhos é a maneira mais eficaz de protegê-los de situações como esta.

Não acredito que proibições sejam eficazes; ao contrário, acho que proibições só criam um desejo maior de transgredir. Conversar, orientar e principalmente ouvir e respeitar as opiniões dos filhos é um caminho bem mais seguro.

Um ser humano sem liberdade não tem como ser feliz, mas liberdade não pode ser confundida com descuido. E como minha mãe sempre diz: diga-me com quem andas e eu te direi quem és.