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O cuzcuz da Dona Ditinha



Ai que saudades que tenho


da aurora da minha vida


da minha infância querida


que os anos não trazem mais


Estava aqui preparando o jantar e me lembrando da minha infância. Toda vez que faço cuzcuz fico me lembrando do delicioso cuzcuz da Dona Ditinha. Ela era uma senhora que se mudou para a nossa rua muito antes dos meus pais irem morar lá em 1968. Eu só nasci em 1971, então posso dizer que ela fez parte de toda minha infância.

A Dona Ditinha era uma senhora do interior de São Paulo que vivia no muro da sua casa e sempre sabia tudo o que acontecia no bairro. Não costumava frequentar as outras casas e não me lembro dela ter comido qualquer coisa na minha casa nas raras vezes que foi lá. Conhecia todo mundo e conversava com todos mas sempre no muro da sua casa.

Mas sempre tinha festa nas reuniões familiares que fazia em sua casa onde se reuniam seus 7 filhos, noras, genros, netos, amigos e os vizinhos mais antigos da rua como meus pais. Todo ano ela fazia uma fogueira no seu quintal no mês de junho e preparava vários pratos típicos de festas juninas e nos convidava pra participar junto a toda sua família.

Nesta festa sempre tinha muitas guloseimas e o delicioso cuzcuz que ela preparava. Aquele cuzcuz paulista com sardinha. Eu adorava!!!! Todo mês de junho eu já ficava esperando pela fogueira pensando no cuzcuz. Como sempre fui uma menina muito educada e só podia comer o cuzcuz se ela oferecesse e repetir estava fora de cogitação, então eu comia bem devagar porque sabia que era aquele pedaço e só no ano seguinte.

Minha mãe nunca fez este prato e quando a Dona Ditinha ficou esclerosada e as festas juninas acabaram eu pensei que nunca mais iria comer cuzcuz.

Quando me casei, naquela tentativa de conquistar o maridinho pelo estômago, comprei vários livros de culinária e ficava experimentando receitas novas. Em um destes livros encontrei uma receita do cuzcuz a paulista e resolvi experimentar. O Sergio que nunca tinha comido essa iguaria antes adorou e eu comecei fazer sempre.

Toda as vezes, enquanto vou adicionando os ingredientes, fico me lembrando da Dona Ditinha e do sabor incomparável do cuzcuz que ela fazia. Por mais que eu tente me lembrar dos ingredientes que ela usava nunca consigo reproduzir o sabor daquele prato que ela fazia. E minha irmã quando experimentou o prato aqui em casa também reconheceu que apesar de saboroso não fica igual ao da nossa antiga vizinha.

O que falta no meu cuzcuz é a fogueira rodeada de gente, as crianças correndo de um lado para o outro, as pessoas conversando, comendo e bebendo e eu, criança, esperando o momento em que a Dona Ditinha iria me oferecer um pedaço do cuzcuz que ela sabia que eu adorava.