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Abrindo os portões

Por medo da violência a rua fica deserta; todo mundo escondido atrás das suas grades; todos presos; amedrontados. As crianças mal podem se aproximar do portão: brincam dentro de casa com seus video games ou assistindo tv e as escolas são agora o ponto de encontro com os amiguinhos; as vezes um aniversário e só.

Os vizinhos mal se encontram e quando vc passa com seu carro de vidro fechado e insulfilme e acena, muitas vezes ele nem olha pra vc. Mas será que ele viu que era vc??? Será que ele viu o seu aceno?

Até que um dia vc decide deixar as crianças sairem na rua pra andar de bicicleta a despeito do risco de ser assaltado. Em pouco tempo outros portões começam a se abrir, outras crianças surgem, alguns pais meio tímidos usando tb seus filhos como desculpa pra estar saindo de casa e em alguns minutos várias famílias voltando aos tempos de antigamente: os pais convesando animadamente no portão, as crianças andando de bicicleta na rua, o cachorro latindo para o movimento, o bebê chorando no carrinho.

Eu fiquei tão feliz com esse contato com meus vizinhos que há tanto tempo moram aqui pertinho e que nunca tivemos oportunidade de conversar. Ver que todos eles sentem os mesmos medos que eu mas também as mesmas necessidades, as mesmas carências, a mesma falta de contato humano, de ver os filhos brincando com outras crianças.

Na verdade a maioria das pessoas não mudou: todos queriam sair na rua, conversar no portão, abrir sua casa para um café com a vizinha. Os discursos são sempre os mesmos e todo mundo sonha com isso (quase todo mundo).

Eu fico me perguntando como são estas relações no Canadá; será que os portões estão sempre abertos? Mais que isso: será que os corações estão abertos?

Enquanto isso vamos tentando manter nossa vida o mais saudável possível por aqui, procurando alternativas para esta solidão a que somos empurrados o tempo todo pela violência.