Skip to main content

Imprudência da juventude

No curso de farmácia noturno da USP, algumas matérias têm uma carga horária bem puxada pra conseguir dar o mesmo conteúdo do período integral. Então, quando vem marcado que as aulas começam as 18 horas e terminam as 24 horas não é brincadeira nem maquiagem pra enganar o MEC.

Em uma destas disciplinas malucas, certa vez eu saí do laboratório mais de meia noite e decidi pegar o ônibus pra Santana em um ponto onde tivesse várias opções. Conforme o tempo foi passando e todos meus amigos foram embora eu percebi que meu ônibus provavelmente não viria e eu tinha que pensar o que fazer. Quem conhece a Cidade Universitária sabe o quanto fica sinistro aquele campus depois que todos os alunos vão embora.

De repente, eu vejo se aproximando 4 rapazes. Fiquei apavorada mas não tinha muito pra onde correr cheia de livros e só me tranquilizei quando eles estavam atravessando a avenida e eu percebi que falavam francês. Provavelmente eram africanos que vieram estudar na USP por convênios que a Universidade mantem com esses países. Não sei muito bem o porquê desta segurança que eles me passaram, mas ficamos ali um tempão esperando um ônibus ou uma carona.

Na época eu estudava francês e conseguia entender algumas coisas que eles falavam e como eram assuntos pessoais fiquei ainda mais tranquila.

Logo em seguida à chegada deles passou um carro de uma empresa e eles fizeram sinal de carona. O cara parou e eles foram conversar. Todos entraram no carro e eu fiquei ali pensando se não deveria pegar uma carona também, mas ao mesmo tempo estava aterrorizada com a idéia de entrar naquele carro cheio de estranhos.

O motorista então desceu do carro e veio conversar comigo. Ele era super jovem, quis saber pra onde eu ia, insistiu muito pra eu ir com ele e acabei chegando à conclusão de que seria o melhor a fazer naquele momento.

Os africanos deixaram que eu fosse na frente (nada mais obvio) e eu fui até o Largo da Batata, onde os africanos desceram, pensando o que eu deveria fazer: ficar sozinha de madrugada no Largo da Batata ou ver pra onde aquele moço ia e tentar uma carona pra um lugar melhor???

Acho que nunca passei tanto medo na minha vida. Quando enfim os africanos pediram para o motorista parar, ele me perguntou pra onde eu ia e se ofereceu pra me levar em casa. Imagine: estávamos no Largo da batata, zona oeste da cidade e ele se ofereceu pra me levar até minha casa, bem depois de Santana na zona norte.

Então, naqueles poucos segundos que tive pra decidir, pensei o que ele poderia fazer comigo já que estaríamos sozinhos no carro e ele estaria no volante. Alem disso eu conhecia o caminho e se percebesse algo estranho poderia tentar uma reação. Imaginei varias situações e ao mesmo tempo vi como a cidade ainda estava movimentada mesmo naquela hora da madrugada.

Acabei aceitando a carona e não me arrependi. O rapaz me levou sã e salva até a minha casa e quando cheguei ele foi super gentil e demonstrou que não tinha nenhum outro interesse a não ser ficar com a consciência tranquila de ter me colocado em segurança.

Hoje, com toda a vivência e maturidade acho que jamais teria aceitado aquela carona e teria tomado decisões diferentes das que tomei naquele dia.

Algum tempo depois, em outra aula maluca que terminava de madrugada, eu e mais um montão de alunos e funcionários ficamos presos na Cidade Universitária por causa de uma forte chuva que fechou todas as saídas. Só que nesta enchente eu já era veterana, conhecia a USP como a palma da minha mão e não tive dúvidas: fui com um amigo que morava no CRUSP (moradia estudantil) e passei a noite em um sofá na portaria do prédio dele. Quando acordei de manhã o porteiro havia me coberto com sua blusa porque achou que eu estava com frio.

Neste mesmo dia me inscrevi pra uma vaga no CRUSP e apesar de não ser o paraíso, tenho certeza que foi uma decisão super acertada e pude terminar a faculdade com mais segurança.

O episódio da carona na madrugada me deixou muito mais sensível em relação as pessoas que estão perdidas, ou em um lugar que não conhecem. Sempre que sou parada pra dar informação procuro fazer o máximo que esteja a meu alcance e varias vezes já mudei o meu caminho pra ajudar alguem a chegar ao seu destino. Infelizmente não me sinto segura para dar carona a estranhos e não sei se algum dia conseguirei retribuir aquela enorme gentileza daquele rapaz que por puro acaso estava no lugar certo e na hora certa.