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Como ser liberal sem ser permissivo

A semana passada, quando cheguei na classe para deixar o Eduardo, presenciei uma cena deprimente: um aluno chorava copiosamente preso no colo da psicóloga. Quando esta o soltou ele partiu pra cima dela tentando agredí-la e acabou sendo preso novamente em seu colo. A professora do Edu ficou visivelmente constrangida e me contou que ele queria salgadinho e estava revoltado porque a mãe não tinha deixado ele levar.

Eu fiquei horrorizada quando vi o menino tentando agredir a psicóloga e não consigo nem imaginar o que eu faria se descobrisse que o Eduardo teve em algum momento um comportamento assim. Pra tranquilizar a professora eu disse que birra e falta de educação têm que ser tratadas daquela maneira mesmo e fui embora.

Outro dia fui conversar com o pai de um menino e o menino ficou dando socos no peito do pai porque precisava "falar com urgência com o pai" e não podia esperar que a nossa conversa acabasse. O que mais me chocou foi que o pai parou de falar comigo pra prestar atenção ao que o menino queria e não corrigiu aquele ato de grande falta de educação do filho.

Eu fico muito preocupada com estas gerações de reizinhos que estamos criando ultimamente. Crianças que não aceitam ser contrariadas, que podem fazer o que querem, que não seguem regras e não entendem que seus desejos não podem ser realizados sempre e quando querem. E conversando com outras mães e ouvindo as histórias dos seus pequenos tiranos eu penso em como serão os jovens dos próximos 10-20 anos.

Cada criança tem a sua mania em particular e que não pode ser contrariada: só come em pé na mesa, só dorme deitada na cama do cachorro, só toma banho se estiver com a capa de chuva; exageros à parte, conheço pelo menos uma dezena de manias que atrapalham a educação e o desenvolvimento da criança e dificultam o trabalho dos pais, mas talvez por medo de serem autoritários ou por preguiça de educar de verdade os pais vão criando e alimentando estes "só se for assim". E ainda contam isso quase com orgulho.

Sem contar que quando perdem o controle e as crianças começam ultrapassar todos os limites fora de casa, os reizinhos passam a vilões ou doentes. São crianças "nervosas", de "gênio forte" ou hiperativas. É impressionante como aumentou nos últimos anos o número de crianças com hiperatividade. O triste é que os verdadeiros hiperativos vão se "misturando" com crianças mal educadas.

E quando não dá pra por a culpa na criança, os pais colocam a culpa nos terceiros: os avós, as más companhias, a escola, o mundo de hoje. Os pais não ensinam aos filhos que o mundo não gira em torno deles e que pra se viver em sociedade temos que ceder, que tolerar, que respeitar o outro; ao contrário, eles ficam lutando contra o mundo para que este se adeque á falta de limites de seus filhos.

Educar dá muito trabalho e exige atenção constante principalmente quando a criança começa sair de casa e conviver com outras pessoas. Meu pai sempre diz que não dá pra se educar filho sentado no sofá e eu concordo com ele. A criança desde a mais tenra idade já sabe muito bem o que quer e vai aprendendo rapidamente quais os caminhos pra conseguir. Qualquer descuido e eles tomam o poder tentando reeleição vitalícia. Eles conhecem como ninguém os nossos pontos fracos e usam artifícios como lágrimas, soluços, vômitos e sorrisos com maestria. Ceder uma única vez é colocá-los no trono com força total e reaver o poder se torna cada vez mais complicado.

Pra mim, criança precisa de regras claras, de limites, precisam aprender o que é certo e o que é errado, precisam saber que o seu espaço termina onde começa o espaço do próximo e que ninguém é melhor que ninguém. Não é fácil; é trabalhoso e cansativo, mas ver um resultado positivo vale muito a pena e quando a criança entende o espírito da coisa, educá-la fica muito mais facil.

Meus filhos estão longe de ser exemplo de educação mas de uma maneira geral não passo vergonha. Entretanto na última consulta da Luísa no pediatra, enquanto o médico examinava a bebê, o Edu e a Helena começaram por o consultório abaixo. Assim que terminei de vestir a Luísa, pedi licença ao médico e coloquei ordem no galinheiro: Eduardo sentado em uma cadeira, Luísa no colo do Sérgio e Helena no meu colo. Pela cara brava e o tom da voz parece que todo mundo entendeu o recado direitinho; nem precisei falar muito. Todo mundo ficou quietinho e eu pude com a maior cara deslavada virar para o médico sorrindo com a voz mais calma do mundo e dizer:

- Desculpe, onde paramos mesmo?

E a consulta transcorreu tranquilamente sem nenhuma intercorrência.