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1 ano de processo e os motivos pra não ficar no Brasil

e um post que promete ser longo!!!

Apesar de todas as angústias estes 366 dias (ano bi-sexto) foram maravilhosos! Nós pensamos e discutimos milhões de vezes todos os prós e contrar de uma ida para o Canadá e não importa por qual ângulo a gente olhe sempre acabamos sendo empurrados rumo ao norte!

O Brasil está passando por um momento de muito otimismo. Todas as pesquisas de opinião pública mostram que o Lula está com sua popularidade em alta e parece que a maioria está muito satisfeita com a situação econômica do país. Todo mundo está tão eufórico com o nosso "crescimento" que nem pára pra discutir os absurdos que estão acontecendo por ai.

Mas eu quero pensar no futuro e no medo que tenho dele estando por aqui. Hoje eu tenho uma vida confortável; se não levar em conta a falta de segurança e todas as violências que sofremos no dia a dia, eu posso dizer que não tenho do que reclamar: meus filhos estudam em uma excelente escola, temos um ótimo plano de saúde, casa própria e um salário suficiente para os nossos gastos.

Agora eu fico imaginando como ficará a nossa vida se por um motivo qualquer o Brasil entrar em crise. Em 98 o Sergio perdeu o emprego e teve que ir fazer doutorado pra pagar suas contas. Naquela época nós nem nos conhecíamos e portanto as despesas dele não eram grandes e viver com bolsa de pós graduação era mais que suficiente. Em 2003 a economia se aqueceu e ele conseguiu um novo emprego mas sendo obrigado a abrir uma empresa e passar nota fiscal, sem nenhum direito trabalhista e com uma carga tributária absurda. Sem vínculos com a empresa, sem fundo de garantia, sem férias e sem perspectiva para aposentadoria.

Neste vai e volta a qualquer momento ele pode perder o emprego novamente e como vamos pagar escola e plano de saúde? Como nossos filhos vão encarar uma escola do estado ou um hospital público? Como o Sergio vai arrumar emprego em tempos de crise com tantos jovens aceitando ganhar bem menos?

Bom, o jeito será eu arrumar um emprego, né? E eu me pergunto: onde? Fazendo o que? Após terminar a faculdade, fiz mestrado e parei tudo quando o Eduardo nasceu. Desde então estou em casa. Não tenho experiência nenhuma como farmacêutica e por ter parado e pelo fator idade não consigo bolsa pra fazer doutorado. Para os padrões brasileiros eu não tenho mais idade para começar uma nova profissão e seja lá onde eu vá trabalhar terei um salário baixo que não vai resolver o problema de saúde e escola das crianças.

O futuro no Brasil me parece sempre incerto porque o que foi decidido pelo governo do hoje pode simplesmente ser mudado no governo do amanhã, nem que seja só pra fazer diferente. Talvez a grande vantagem do Lula em relação a outros governos tenha sido a manutenção de muitas coisas que o FHC começou e com esta continuidade alguns resultados estão aparecendo. Mas no fundo nós nunca podemos ter certeza de que daqui a dois anos as políticas econômicas não serão totalmente alteradas e toda a programação que vc fez para sua vida nos próximos 5 ou 10 anos tenha que ser mudada.

Eu não consigo ver nenhuma mudança estrutural acontecendo de verdade em nenhuma das políticas sociais do governo (nem deste, nem dos anteriores). Hoje eu vi uma pesquisa sobre o bolsa familia e outros programas sociais e os resultados a meu ver são desanimadores. Apesar de ter aumentado o número de crianças matriculadas nas escolas, apesar destas crianças frequentarem a escola o ano todo, apesar de diminuir a cada ano a evasão escolar, os índices de analfabetismo pouco diminuiram.

A qualidade do ensino público não melhorou em nada nos últimos anos. De que adianta prender as crianças nas escolas e elas sairem de lá como entraram: sem um aprendizado efetivo? Até as escolas particulares deixam muito a desejar quando comparamos o Brasil com outros países.

A pesquisa também mostrava que os programas sociais trouxeram uma aumento no consumo. Ótimo: estas pessoas hj podem comprar uma tv nova, a maquina de lavar, um celular "ultimo tipo", podem mobiliar suas casas com o que há de mais moderno através de crediário em 500 vezes, estas pessoas agora podem ir no MC Donald's e encher o carrinho no supermercado. Entretanto não mudaram de vida: continuam morando em favelas, sem saneamento básico, jogando lixo nas ruas, não dão valor pra educação, não têm noções mínimas de higiene (o que melhoraria muito a qualidade de vida), não estão se alimentando melhor. Ao contrário, estamos cada vez mais dando valor ao ter, ao consumir, mais valor ao que se pode exibir.

Estamos criando uma nova geração acomodada e que não estará preparada pra correr atrás das coisas no futuro. Estamos dando o peixe e não ensinamos ninguem a pescar. Damos a bolsa esmola mas não investimos em mudanças de mentalidade. O que acaba acontecendo é que a maioria ao invés de usar este dinheiro para se formar, para crescer, para mudar de vida , acaba se acomodando e fazendo qualquer coisa para manter a ajuda do governo. E o pior: muitas vezes não dá o mínimo valor para o que recebe.

Quantas pessoas não vendem o leite que as crianças recebem nas escolas municipais de São Paulo pra comprar cigarro ou "pinga" e ainda justificam que o leite é muito ruim. A empregada da minha amiga não quer ser registrada pra não perder a bolsa não sei das quantas que recebe.

E eu me pergunto: o que vai ter mudado na vida destas pessoas no futuro se as escolas continuarem sem qualidade? O que vai ter mudado se eles não aprenderem a prevenir doenças e não somente procurar tratamento? O que vai ter mudado se ainda for possivel dar um jeitinho pra manter um bolsa esmola qualquer por mais um tempo? O que vai ter mudado se as crianças continuarem morando ao lado de esgotos a céu aberto, sem privada, sem água encanada, sem luz elétrica, sem noções mínimas de higiene. Crianças aprendendo desde pequenas que o que faz a diferença é a esperteza, o jeitinho brasileiro, a malandragem.

Mas não são só os pobres que não têm noção das coisas. Só o poder aquisitivo não é suficiente para promover mudanças. Tem muita latinha voando pelas janelas de carros de luxo. Ter dinheiro não significa ter educação. Eu diria que a maioria das crianças não andam em cadeirões nos carros; aliás, sequer usam cinto de segurança. Quantas pessoas não perderam suas carteiras de motorista por pontuação e continuam dirigindo normalmente? Quantas propinas não pagamos todos os dias por ai?

As vezes eu me sinto constrangida quando alguem me oferece ajuda porque a praxe é dar um real e eu não dou. A picaretagem já está institucionalizada!!! Meus pais frequentam uma feira e têm que pagar R$1,00 pro guardador de carros. Quem vê o fulano conversando com meu pai chega a achar que eles são amigos. Toda semana se encontram, conversam, ele ajuda meu pai a manobrar o carro, sinaliza onde meu pai pode estacionar (mas não ajuda com as compras). É uma relação engraçada porque hoje nem parece que meu pai tem medo dele; e não tem, se tornou um conhecido. Mas nós sabemos que se meu pai parar de pagar ele vai riscar o carro.

Por mais que vc queira fazer as coisas certinhas não consegue; sempre tem que dar um jeitinho ou não consegue sair do lugar. Pra cancelar o provedor da uol eu demorei quase um mês e só consegui quando simplesmente parei de pagar e eles entraram em contato pra cobrar. E não foi a uol quem me ligou; foi uma empresa de cobrança. Pois me recusei a conversar com a empresa e só então me ligaram diretamente da uol e eu paguei a mensalidade atrasada mas consegui cancelar a assinatura.

Minha passadeira não teve tanta sorte porque até hoje não conseguiu cancelar o provedor IG. Como usou o cartão de crédito de um amigo acha chato simplesmente cancelar o pagamento e enquanto não consegue falar no ig pra fazer o cancelamento vai pagando a mensalidade.

Perto de casa tem um grupo de alunos de uma famosa faculdade que fazem festas que terminam as 6 da manhã e nenhum vizinho chama a polícia. Por que? Porque a polícia só vem se vc se identificar e todo mundo tem medo dos caras.

Enfim, nós vivemos em constante insegurança por não saber o que vai acontecer, o que pode acontecer e como as coisas vão estar amanhã ou daqui a 10 anos. Estamos sempre construindo muralhas para nos cercar e proteger de um inimigo desconhecido que pode ser um ladrão armado, pode ser a companhia telefônica rouvando na mensalidade com telefonemas que vc não fez, ou simplesmente o guarda da rua que vc resolveu não pagar mais porque ele xingava suas visitas quando ficaba bêbado.

Prefiro sonhar que vou chegar ao Canadá e ainda que um emprego na nossa área demore 6 meses ou 1 ano, a escola de qualidade para nossos filhos estará garantida e depois dos 3 primeiros meses poderemos usar o serviço público de saúde. E se o tão sonhado emprego na nossa área demorar muito a aparecer teremos a chance de sustentar nossa familia com muita dignidade fazendo qualquer outra coisa. Pra mim, só essa tranquilidade já seria um bom motivo pra sair do Brasil.

Agora, olhando pra trás e pensando em todas as coisas boas que aconteceram neste primeiro ano de processo eu chego a dizer que está passando rápido. Eu sei que muitas dificuldades ainda virão, muitas angustias, muitos medos, mas acredito que vá valer a pena e que um dia meus filhos vão entender porque eu os privei da proximidade da familia, que hj é a única coisa que pode realmente me fazer falta.