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O que faz diferença na hora de decidir onde morar? by Sergio

Tenho recebido pouquissimas críticas em relação a nossa futura ida para o Canadá. Não sei porque mas existem aqueles que nos apoiam fortemente (como toda a "turma" de futuros imigrantes ou nossos médicos) e aqueles que tanto faz como tanto fez (aí acho que entram meus sobrinhos como representates símbolos). Oposição mesmo, de falar que não gosta da idéia, e que sempre se manifesta, é a minha mãe o único exemplo.

As poucas críticas que recebemos (com também a honrosa exceção da minha mãe), no entanto, eu acho muito desfocadas. O pessoal se refere a problemas que estão lá no final da minha lista de preocupações e esquece de coisas muito importantes.

Vou tentar discutir esses aspectos um a um:

- Frio: essa é uma grande barreira, não sei como vamos reagir tendo passado toda a nossa vida em São Paulo, que mesmo nos meses mais frios do inverno, existem dias agradáveis. Mesmo nossa estada em Atlanta, não pode ser comparada. Vamos ver a temperatura de hoje por exemplo, São Paulo 20°C (maravilhoso), Atlanta 13°C (ainda tá bom, vai), Vancouver (-1, dá para se virar) e Calgary (-6, frio a beça). E olha que já estamos falando de primavera no hemisfério norte. Não sei qual será nossa reação.

- Família: para ser muito franco, minha única preocupação é minha mãe. Minha irmã talvez um pouco menos. Isso vai ser problema.

- Língua: sou um assumido "nó cego". Se somar tudo o que eu já estudei de inglês daria para ser um PHD em línguas. Mas as partes do meu cérebro dedicadas ao aprendizado de línguas, ou às ciências humanas devem ter atrofiado pelo peso da matemática, risos. Não é fácil morar em um país em que não se entende tudo o que está acontecendo.

- Nacionalismo: isso pra mim é bobagem. Acho que nesse ponto temos que ser individualistas. Não vou ser um "dom Quixote" atacando os moinhos de vento. Na verdade, sofri um "desalento" em relação ao país. Na época dos militares existia muita esperança de que os nossos problemas eram unicamente provocados pelo governo. Existia também a URSS que era o contraponto dos EUA capitalista, frio, somente ligado ao dinheiro (só depois fomos descobrir que os russos, ou europeus orientais tavam na verdade desesperados para virarem capitalistas!!!). Só que os governos militares cairam, se fizeram acordos e continuamos com um filhote da ditadura, o Sarney. Aí depois de cinco anos de mandato assume outro filhote o Collor, que deu no que sabemos. Finalmente, quase dez anos após caída a ditadura um presidente "popular", uma pessoa comprometida com o combate a ditatura, com as causas sociais, um pensador de esquerda assumiu. E deu no que deu de novo, acordo com as elites, ACM como ministro, etc., etc. Etc. Em São Paulo mesma coisa, governos ditos progressistas por duas décadas, e a mesma estagnação na educação pública, na saúde. Mas existia uma esperança, existiam "caras" que eram contra tudo isso que está aí. Eu mesmo votei no Lula algumas vezes. Só que quando esse pessoal chegou ao poder, fez o mesmo do que seus antecessores, ou até pior. Ao invés de procurarem apoio do conservador DEM, foram atrás dos só não conservadores como fisiologistas do PR, PP, PTB e deu no que deu. Só que a grande diferença é que agora não existe um PT em que a gente possa confiar. E o pior de tudo isso é que o povo brasileiro fechou com essa situação. Resumindo se eu tiver que optar entre o ame-o ou deixe-o vou ficar com o segundo. Pelo menos nestas condições. E tenho direito a querer isso para os meus filhos se tenho certeza que as coisas só vão melhorar para meus netos, se melhorarem.

- Problemas do Brasil. Para conseguir comparar o Brasil com os países do primeiro mundo é preciso morar um tempo lá. E não pode ser como turista. A diferença é gritante. Na verdade a diferença choca. Sair na rua e saber que não tem ninguem te observando, que ninguem vai ligar se voce entrar numa loja com sapato furado, que a filha da faxineira estuda na mesma escola que seu filho, que se o cara passa o limite de velocidade na estrada o guarda pega, que o carro para na faixa, é muita coisa. E por aí vai.

- Segurança pública, estamos em guerra civil e não nos importamos com isso. Iraque, Líbano, Israel, Tibete tão melhores do que a gente. Ano passado morreram 46.000 pessoa por morte violenta. Era o que morria por mes no Vietnã. Isso se os indices não são subavaliados. Não sei como convivemos com isso! Todo mundo conhece alguem que teve alguma história de violência próxima. Veja por exemplo a minha querida sogra, em um tempo super curto, o carro de uma filha foi acertado por uma bala perdida (pelo menos sem ninguem dentro), um sobrinho levou uns tapas dos ladrões e perdeu o celular, o outro ficou de refém dentro de casa por um tempão, o vizinho da rua de cima (e amigo de infancia dos meus sobrinhos) foi assassinado pelos ladrões porque passou um carro da polícia por perto, tentaram linchar uma outra vizinha, e por aí vai. Tem também o genro, no caso eu, que a família teve que esperar por meia hora para saber que ele estava no avião de trás e não no avião que atravessou a pista e ninguém sabe ao certo ainda como que aconteceu uma coisa dessas (violência não é só assalto). Como fica a cabeça de uma pessoa assim?