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E este processo de imigração...


Este processo de imigração não é uma brincadeira como as vezes pode parecer; ele é caro, é demorado e chega um momento em que as nossas emoções ficam em frangalhos. É desgastante demais esperar por algo que vc não tem certeza se vai dar certo, esperar sem uma precisão de quando vai acabar e com regras que podem mudar a qualquer momento.

Mas é interessante pensar em todo o tempo que investimos neste processo e nas pessoas que nos ajudaram em todo este tempo sem nem imaginar. Fico pensando em toda a minha trajetória escolar, em todos os anos de estudo a que me dediquei; os três anos de mestrado, que pode parecer não terem servido pra nada já que parei de trabalhar quando o Eduardo nasceu, mas que nos valeram preciosos pontinhos no questionário do consulado. O doutorado do Sergio, todos os anos de trabalho duro que ele enfrentou, com viagens horrorosas por lugares tenebrosos que só nós sabemos como foram.

E bem lá atrás, quando ainda éramos pequenos, todas as conversas dos nossos pais, todo o incentivo para estudar, para sermos responsáveis, toda orientação em relação a dinheiro que sempre foi curto para os dois, todos os NÃOS que nos ensinaram a lidar com as situações adversas e todo apoio pra não desistirmos dos nossos sonhos no primeiro obstáculo.

Foram tantas pessoas e situações que foram passando por nossas vidas e nos preparando para todas estas emoções contraditórias que vivemos hoje.

No final sempre podemos tirar de toda esta experiência algum aprendizado; entender que ficar parado nem sempre é sinal de comodismo e que em alguns momentos simplesmente temos que parar, respirar fundo e esperar (coisa dificílima pra mim).
Este processo também nos ensina a conhecer as pessoas e nos traz muitas surpresas com elas; nos afasta de umas, nos aproxima de outras, e nos dá uma força muito grande pra aguentar todas as pressões.
E ele é demorado, lento, angustiante, mas atrás desta demora ele nos dá tempo de digerir toda a mudança que vai acontecer. Podemos pensar em todas as possibilidades, em tudo o que pode dar errado, temos tempo pra conhecer o Canadá de trás pra frente, temos tempo de viajar pelas províncias, pelas cidades, ter uma idéia do clima, do mercado de trabalho, das escolas, alimentação, costumes e ir se preparando psicologicamente para o que vamos encontrar por lá.
Temos tempo de nos despedir das coisas daqui, das pessoas, dos lugares, das comidas...

E ainda temos tempo de aprender que imigrar não é pra todos e entender que as reações das pessoas não são para nos prejudicar. Para imigrar é preciso ter um espírito de aventura, uma vontade quase incontrolável de enfrentar o desconhecido; é preciso um desapego e uma paixão que nem todo mundo consegue entender. É se dar uma nova chance, a chance de renascer no local que vc escolheu pra viver e onde vc quer começar uma nova vida.
Muitas pessoas nos chamam de corajosos. Corajosos foram meus avós que chegaram no Brasil no início do século XX com poucas informações e pouquíssimas chances de retornar se as coisas não dessem certo. Nenhum deles jamais voltou à terra natal e as poucas informações que trocavam com parentes de lá eram através de cartas que levavam mais de 3 meses para ir e outros três pra receberem a resposta.
Uma amiga argentina estava contando que quando veio para o Brasil, há 20 anos atrás, sem dinheiro, precisava tirar cópia das cartas que mandava para a mãe porque quando recebia a resposta já não se lembrava o que tinha escrito na carta que havia enviado. Este pessoal sim, teve muita coragem!!!
Pra nós, tudo vai ser bem mais fácil, bem mais simples, bem mais tranquilo. Será que vai ser melhor ou pior que a vida que temos aqui? Será que vamos ser mais felizes lá? Eu não sei. Mas o bonde parou na nossa frente e abriu a porta. Muitas pessoas deixariam que ele fosse embora, mas existe em mim uma força incontrolável que me leva a entrar nele e seguir viagem. Pra minha alegria esta força age sobre meu marido e ele embarcou ao meu lado.

PS: segundo minha amiga argentina: Oportunidade é uma pessoa que só tem cabelo na frente; é careca nas costas. Depois que ela passou vc não consegue mais segurá-la.