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O que faz vc feliz?


Hoje estamos completando um mês de Canadá!!!

Já faz um mês que deixamos São Paulo embaixo de um dilúvio, com um trânsito ainda mais caótico que o normal; deixamos pra trás toda uma vida que construímos com muita luta e determinação e deixamos a famosa zona de conforto.

Hoje eu entendo perfeitamente as caras de espanto, a surpresa geral, aquele gesto negativo com a cabeça... Entendo como é dificil aceitar que uma familia privilegiada como a minha em um país como o Brasil, de repente largue tudo pra começar do zero (e com temperaturas abaixo de zero em boa parte do ano).

Eu tenho certeza que há uns 10 anos atrás, quando eu e o Sergio ainda negociávamos se teríamos 2 ou 4 filhos, uma história como a nossa também me causaria espanto. Em uma sociedade capitalista o que nós fizemos realmente não é coisa de gente normal, não dá mesmo pra entender; não tem explicação que seja suficiente.

Ao contrário do que ocorria no Brasil, por aqui nós matamos pelo menos um leão por dia. Não houve um dia sequer de folga, quase não passeamos por enquanto. Só conseguimos ter algum lazer depois que o nosso leão do dia foi resolvido e quando olhamos nossa agenda vemos a longa fila que nos espera para os próximos dias. E tudo com três crianças a tira colo e pedindo colo, pedindo água, pedindo pra fazer xixi, pedindo pra fazer exatamente o que o outro está fazendo e não dá pra dois fazerem ao mesmo tempo...

O nosso poder de compra caiu muito porque além de não estarmos mais recebendo, aqui o nosso dinheiro vale a metade (sem contar o IOF!!!). Hoje eu faço continha de novo, economizo, compro menos ou não compro. A casa agora é por nossa conta e apesar das minhas
ajudantes colaborarem muito elas não fazem nada sozinhas e eu sempre tenho que finalizar o trabalho.



A comida é outro sacrifício porque além de ter que descobrir o que é o que e onde comprar, ainda tenho que aprender como preparar e depois ir testanto até ficar do jeito que a minha família gosta.

Às vezes cansa, às vezes desanima, às vezes parece que nada está dando certo ou que não estamos conseguindo sair do lugar. Às vezes a gente se desentende, tenta encontrar um culpado e logo em seguida morre de rir com tanta confusão que fazemos.

Eu olho pra trás e fico me lembrando do que nós tínhamos e de como fomos felizes no Brasil mas... não sinto saudades. Sinto saudades das pessoas mas não daquela vida.



Apesar dos atropelos, este mês foi muito gratificante e enriquecedor. Aprendemos muito, mudamos muitos conceitos, nos unimos ainda mais. As preocupações ainda existem mas em outra dimensão. Nós nos desarmamos, não temos mais medo das pessoas, sorrimos com mais facilidade e permitimos que as pessoas se aproximem mais; e elas se aproximam, elas nos ajudam, dão dicas, conhecem os nossos problemas muitas vezes por experiência própria e nos tranquilizam. Se não se aproximam também não nos repelem; não sentem medo de nós e não nos causam medo.



Não sei quanto tempo isso vai durar mas estamos sendo mimados, cuidados e muito bem tratados pela grande maioria das pessoas. E não são só brasileiros; são pessoas que nunca nos viram antes, pessoas que passam por nós na rua, pessoas que mal conseguem entender o que falamos por falarem um inglês ainda pior que o nosso.



As crianças estão sendo um caso à parte. Eles sempre adoraram conhecer pessoas, conversar com todo mundo, fazer novos amigos. Era raríssimo ir a algum lugar com eles e o Edu não sair conversando com alguém. De repente tudo mudou: eles não conheciam mais ninguém e ainda perderam a capacidade de comunicação. Eles não entendem o que as pessoas falam e ninguém entende o que eles dizem. Meu medo foi que esta nova situação acabasse com este jeito aberto que eles sempre tiveram e que eu tento cultivar ao máximo.

E mais uma vez eles me surpreenderam: vão ao parque e fazem amigos, vão à biblioteca e conhecem alguém; no supermercado mexem com todo mundo. Não falam, não entendem mas usam como ninguém os gestos e a linguagem do sorriso. Assim como nós estão mais abertos, mais tranquilos e até a Helena que é mais quietinha já está colocando as asinhas de fora.



Se interessam pela lingua, querem aprender, querem saber como se fala, querem entender o que os outros dizem. Assistem a TV com atenção e não reclamam por não entenderem nem se desinteressam. Têm se comportado super bem (com algumas exceções, é claro!!!) e colaborado muito. Se esforçam quando a comida fica ruim e encaram tudo como um divertimento.


Várias pessoas têm me perguntado se está valendo a pena e minha resposta é sempre sim. Está valendo muito a pena pra mim. Está sendo muito parecido com o que eu esperava e a perda de certos privilégios que eu tinha no Brasil não estão me incomodando; tenho vivido muito bem sem eles.


Mas o que é bom para mim pode não ser bom para você. E pior, pode ser insuportável ter que começar de novo do zero; pode ser inaceitável ter que voltar a ser estagiário depois de ter sido presidente; pode ser muito sofrido ter que fazer faxina e comida todo dia pra quem tinha uma fada como eu tinha. E para a maioria dos skilled workers tudo isso pode acontecer por aqui. Não devemos imaginar que teremos aqui no Canadá o status que tínhamos no Brasil e pode ser muito difícil conviver com isso.


Então, antes de qualquer coisa pensem bem o que vcs estão procurando aqui no Canadá e prestem muita atenção ao que o Canadá está te oferecendo. Podem ser coisas completamente diferentes e a decepção vai ser grande.


E a todo momento pense no que você precisa para ser feliz, o que não pode faltar na sua vida para vc se sentir realizado. Se você descobrir que no Canadá vc vai encontrar estas coisas eu tenho certeza que o Canadá vai valer a pena pra vc também.