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Marilena e a máquina de jornal


No início da minha adolescência eu decobri que era desajeitada: acho que cresci rápido demais e demorei um bom tempo para me acostumar com aqueles braços e pernas enormes que saiam do meu corpo e então vivia tropeçando e me enroscando em tudo que passava perto de mim.

Depois de um tempo eu consegui controlar os meus braços e pernas mas continuei desajeita dando cabeçada em pilar do metro ou poste de rua enquanto andava lendo distraída pela cidade. E quando de alguma forma me sinto pressionada ou observada, fico totalmente perdida e começo fazer besteiras. No momento tenho sido intimidada por uma máquina que vende jornal e não dou uma dentro com ela.

Meu primeiro contato com uma destas máquinas foi em Atlanta há 4 anos atrás, mas nesta ocasião nós não fomos apresentadas formalmente. Como tenho que levar jornal duas vezes por semana no curso de inglês tive que me aproximar de uma aqui no predio e a antipatia foi total e recíproca.

No primeiro encontro eu fiquei um tempão procurando onde deveria colocar as moedinhas. Apesar da seta indicando o local eu demorei um certo tempo para descobri como abrir a "portinha" que fechava a entrada das moedas. Depois de um bom tempo puxando pra cima, pra baixo, empurrando e xingando com um sorriso no rosto eu descobri que bastava puxar para o lado: facil e simples.

Li as instruções, vi o preço do jornal (50 cents de segunda a sexta; 1 dolar aos sabados e 1.50 aos domingos) e fui com minhas moedinhas fazer a primeira tentativa. Era uma segunda-feira e então coloquei duas moedinhas de 25 centavos e apertei o botaozinho: a máquina devolveu meu dinheiro.

Tentei de novo: ela devolveu.
Mudei a posição das moedas: ela devolveu.
Troquei por outras moedas: ela devolveu.
Coloquei uma moeda de 1 dolar: a danada aceitou!

Peguei meu jornal e fui pra aula. No caminho encontrei outra máquina destas na rua e vi que o preço era diferente (1 dolar de segunda a sexta, 1.50 no sabado e 2 dolares no domingo). Quando cheguei na classe eu descobri que o jornal deve ser levado na terça e quinta e não na segunda feira. Tudo bem: o Sergio leu o jornal inteirinho e não foi perdido.

No dia seguinte voltei até a máquina para comprar o jornal. Coloquei as duas moedas de 25 centavos e ela devolveu.

Fiz varias tentativas e ela não aceitou. Então me lembrei dos preços da outra máquina da rua e cheguei à conclusão de que o preço estava errado ali porque não teria porque ser mais barato no predio. Como eu já estava atrasada tasquei uma moeda de 2 dolares porque só tinha duas moedas de 25 centavos. A máquina aceitou e eu pude pegar o jornal: DO DIA ANTERIOR!!! Alem de ter pagado mais caro pelo jornal ainda era o do dia anterior que já havia sido comprado e lido.

Na quinta-feira cheguei perto da máquina de cara feia. Peguei todos os trocadinhos que eu tinha em casa e coloquei dentro dela: ela devolveu tudo. Coloquei tudo de novo: moedinhas de 1, 5 e 10 centavos e ela devolveu tudo outra vez. Então reli as instruções e descobri que ela não aceita 1 centavo!!! Coloquei uma moeda de 1 dolar e peguei meu jornal mau humorada.

Na próxima terça feira mal olhei para a cara dela. Olhei a data do jornal, coloquei minha moedinha de 1 dolar para encurtar conversa, apertei o botão, peguei meu jornal, deixei a portinha bater e quando tentei sair percebi que o fio do meu fone de ouvido tinha ficado preso dentro da máquina.

Apesar das minhas inúmeras tentativas, não houve jeito de tirá-lo. Minha vontade foi a de chutar a máquina gritando todos os impropérios que conheço em portugues, mas como (também) sou uma pessoa adulta e equilibrada eu só desconectei o fone de ouvido do ipod e fui pra minha aula roxa de raiva. Quando voltei da aula o Sergio resgatou o fone de ouvido pagando por mais um jornal.

Agora eu passo por ela sempre na defensiva: coloco minha moedinha, aperto o botao com delicadeza, pego meu jornal devagarinho e fecho a portinha com cuidado. Na dúvida é melhor tratá-la com respeito.