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Ah se eu fosse mais nova...

O Sergio está me dando um cursinho básico de Rock-Punk-Heavy Metal e coisas desse tipo. Ele procura as bandas no you tube e na wikipedia e vai me explicando algumas diferenças e me colocando pra ouvir coisas atuais e também muito antigas, lá do início destes movimentos.

E hoje, na minha aula, ele estava se lembrando do quanto era difícil conseguir qualquer tipo de informação na nossa infância e adolescência. Lembrem-se que víviamos em bairros da periferia de São Paulo, estudando em escola estadual com professores que as vezes sabiam menos que nós. Biblioteca era artigo de luxo e mesmo quando eu conheci o Centro Cultural São Paulo eu não podia ir sempre porque pegar ônibus e metrô era caro, rs. Mas quando ia, ficava horas lendo sobre vários assuntos: literatura, religião e principalmente biologia que era minha paixão. É claro que eu também lia sobre coisas mais adolescentes como astrologia, por exemplo. Foi lá que aprendi a calcular o ascendente pela hora do nascimento, rs.

Eu me lembro que meu pai comprou uma enciclopédia da Abril e eu passava minhas tardes lendo coisas que me interessavam ou tentando aprender alguma coisa a mais que tinha visto na TV ou ouvido falar. No início da minha adolescência eu não tinha nenhum tipo de informação sobre sexo e para meus pais isso era assunto proibido. Aprendi muitas coisas sobre métodos anticoncepcionais em um trabalho que minha irmã mais velha fez na escola. Eu e minha melhor amiga liamos o tal trabalho o dia inteiro e depois corriamos para o dicionário para ver o significado de certas palavras que desconhecíamos. O detalhe é que apesar de saber muita coisa sobre métodos anticoncepcionais, eu não tinha muita informação de como os bebês eram feitos, só imaginava, rs.

Mas eu ainda posso dizer que era privilegiada porque tinha 3 irmãs bem mais velhas que me passavam uma ou outra informação em suas conversas de mocinhas; eu tentava sempre ficar ouvindo o que elas conversavam, rs. E ainda tive a sorte do meu pai comprar a tal enciclopédia que complementava muitas coisas.

No caso do Sergio, o interesse era por música e eu acredito que o trabalho dele era ainda mais difícil que o meu. Ele não tinha dinheiro para comprar discos e as radios no Brasil costumam investir na mesmice que dá audiência. Ele sempre me conta de como era difícil conhecer alguma coisa diferente e quando conseguia ouvir uma música de uma banda interessante acabava não tendo como encontrar mais informações sobre a tal banda.

Hoje tudo está ai, de graça, pra quem quiser ler e ouvir. Não existe um assunto que vc não tenha na telinha do seu computador e mesmo a televisão tem muitos programas interessantes que ensinam muitas coisas. Podemos pensar que muita gente não tem acesso à internet, mas mesmo quem tem não se interessa.

Eu fico me perguntando se as dificuldades é que faziam a gente querer saber mais e mais. Seja como for, acho que nós nos acostumamos com isso porque estamos sempre pesquisando um assunto novo, estudando alguma coisa, querendo aprender e aproveitar todas as facilidades que a internet nos trouxe. Aqui no Canadá estou sempre aproveitando as oportunidades que os outros imigrantes me trazem.

Hoje por exemplo, eu descobri que Sri Lanka foi invadido por Portugal um pouco antes de ser invadido pela Inglaterra e que por isso eles usam algumas palavras em português no idioma deles. Agora já sei que no Sri Lanka sapato é sapato. Pra que serve esta informação??? Sei lá, mas tenho certeza que um dia ela me será útil para alguma coisa, rs.

Ah se eu tivesse tanta facilidade de informação quando tinha 13 ou 14 anos...

PS: ter infância pobre não é nada legal quando vc está vivendo nela, mas hoje, depois de passadas aquelas dificuldades, eu me divirto muito lembrando como conseguia fazer as coisas mesmo com pouco dinheiro, rs.