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Bullying

Infelizmente bullying é uma realidade e talvez esteja presente em todos os cantos do planeta. No Brasil é muito comum, assim como nos EUA e aqui no Canadá. E é preciso ficar muito atento porque as vezes as coisas começam de bobeira e quando vc vê já estão maiores do que a criança pode suportar.

O Eduardo fica na escola das 8:45 AM até as 3:20 PM, então ele tem dois pequenos intervalos chamados de snacks, um antes e outro após o almoço. Eu sempre mando o almoço e para os snacks eu mando alguma coisinha que ele goste como cookies, queijinho ou alguma fruta.


Um belo dia, conversando com o Edu eu descobri que os cookies que eu mando para o snack dele eram divididos com os amigos. Pelo que ele me explicou quase ninguem leva nada para estes intervalos pequenos e então todo mundo vem pedir um cookie para ele.

Apesar de apreciar a gentileza do meu filho, eu fiquei meio brava porque estas coisas são caras por aqui para eu ficar alimentando a escola inteira com cookie e também porque nesta história o Edu acabava não comendo o quanto eu gostaria que ele comesse. Na reunião que tive com a professora, nós acabamos conversando sobre isso e ela disse que é expressamente proibido dividir o lanche com os amigos. Segundo a professora é muito perigoso porque existem muitos casos de alergia entre as crianças, sem contar os problemas religiosos onde muitas crianças não podem comer determinados tipos de coisas.


Após esta conversa com a professora eu conversei com o Edu e expliquei porque ele não deveria dividir o lanche dele com ninguem e disse que ele poderia simplesmente dizer não. Neste momento os nossos problemas aumentaram, rs.


Pouco tempo depois disso o Edu começou a reclamar de uma coleguinha que não o deixava pegar livros na biblioteca da escola. Por 2 semanas ele chegou em casa chateado porque não conseguiu pegar nenhum livro e dizia que a menina ficava andando atrás dele e tirando os livros da mão dele. Então, lá fui eu falar com a professora sobre os livros e a partir da semana seguinte o problema dos livros foi resolvido, mas outros problemas apareceram, rs.


Eu percebi que o Edu não comia mais os snacks que eu mandava e deixava-os para comer em casa. Um dia ele me pediu pra não mandar mais snack porque ele não queria mais comer no intervalo. Foi dificil tirar alguma coisa dele mas um dia ele me contou que a menina, a mesma da biblioteca, ficava ameaçando contar para a professora se ele não desse snack para ela.

O Edu é um menino super meigo e carinhoso, mas tem um senso de justiça muito grande. Como ele achava injusto ter que dar o lanchinho que ele tanto gostava para uma menina de quem ele não gosta, ele resolveu não levar mais o lanche e come-lo em casa. Foi muito bem pensado, mas não resolveu o problema dele porque ele continuou com medo da menina e se privando de algo que gosta. Esta história durou até as ferias de dezembro. Eu tentando arrancar informações; ele tentando se livrar da menina.



Agora em janeiro eu comecei convence-lo a levar para a escola o que ele quisesse e para não se preocupar com a menina. Tive longas conversas com ele, explicando que os adultos da escola estão ali para protege-lo (espero) e que ele não precisa ter medo porque a menina não vai fazer nada contra ele. Também disse que sempre que ele quiser, ele pode procurar um funcionário da escola para conversar ou falar comigo e com o papai, etc etc etc.


Então, resolvi mudar um pouco o lanchinho dele; comecei mandar queijinho porque parece que a menina gosta mesmo é do cookie de chocolate (e quem não gosta, né?). Mas segunda-feira, quando saiu da escola, ele estava chateado porque a menina disse que ele tinha que trazer um monte de lanchinhos para ela porque senão ela contaria para a professora.

(a sensação que eu tenho é que a menina fica brava quando ele não leva os cookies e então, em represalia, ela o ameaça de alguma forma. Primeiro foi na biblioteca e depois com intimidação mesmo porque ela é maior que ele e percebeu que ele fica com medo.)

Nós já estávamos chegando em casa e ele me contando estas histórias, eu dizendo que ia falar com a professora e de repente... me deu "um cinco minutos", eu fiz um retorno no meio da rua onde estava e voltei pra escola.


Imaginem a mãe do Eduardo chegando na escola 15 minutos depois de todo mundo ter ido embora com três crianças a tira-colo, rs. A secretária ficou me olhando atônita quando entrei na sala dela e disse que precisava de ajuda para resolver um problema que o Eduardou (como eles dizem) estava tendo. Contei o que vinha acontecendo e em seguida falei para o Edu explicar pra ela.


Nesta parte foi ótimo porque ele conversou tranquilamente com ela, explicando o que vinha acontecendo e ainda descreveu a menina, rs (tudo em inglês, é claro). Então a secretária chamou a professora e nós novamente explicamos a situação.


A professora ficou assustada porque ela disse que já tinha conversado com a menina naquele problema da biblioteca e que não tinha percebido mais nada. E então conversando com o Edu nós descobrimos que a menina age sempre que o pega sozinho no parque. Não sei dizer se ela é agressiva, e acho que ela nem ameaça bater nele, mas o fato dela ser maior que ele (ela é do grade 2) e ele não dominar totalmente a lingua faz com que o Eduardo fique com medo dela.


A professora já conversou com a menina e por enquanto ele está levando os cookies e ela não se aproximou. Espero que este problema esteja resolvido mesmo. Eu adoro a escola e não gosto de ficar reclamando das coisas, mas nestes casos nós temos que estar sempre atentos. Muitas vezes a criança não conta tudo o que está acontecendo, e nem é por medo, mas porque acha que pode resolver a situaçao sozinha. O Edu estava tentando resolver tudo do jeito dele e se nós não tivéssemos percebido o problema poderia ter se tornado muito maior.

E eu fui descobrindo estas coisas meio que sem querer; em uma frase que ele soltou um dia. Pra sorte dele, foi bem no começo e esta situação não chegou a interferir na vida dele, mas eu imagino o quanto a hora do snack não era estressante para ele e como ele devia ficar fugindo da menina no parque.


Eu já sofri muitas ameaças na escola. Meninas repetentes grandalhonas que ficavam perseguindo as menores. Mas naquela época não se tinha a menor ideia da existência de bullying e muitas vezes a vítima levava a culpa.

Me lembro de uma menina chamada Catia que devia ser uns 4 ou 5 anos mais velha que eu e que vivia me ameaçando. Ela ficava me provocando, ameaçando me "pegar" na saída, um verdadeiro terrorismo. Ela achava que eu e minha amiga nos encontrávamos para falar mal dela ou rir dela, sei lá. Eu morria de medo e não contava pra ninguem na escola. E minha mãe sempre me falava: "fica longe dela que ela não vai te fazer nada". Mas como ficar longe se estudavamos na mesma sala e ela estava sempre por perto me olhando? Graças a deus ela foi reprovada "mais um vez" e eu me livrei daqueles olhos verdes apavorantes, mas jamais vou me esquecer daquela menina.

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Esta música foi baseada na historia de Jeremy Wade Delle que em 1990 cometeu suicídio em na sala de aula, em frente aos seus amigos e professora de inglês, como "protesto" pelas agressões que sofria


PS: alguns links interessants sobre o assunto:

Bullying - Wikipedia
PREVNet Canadá

Safe Canada
Bullying Prevention in Schools
Cyberbullying Canada
Bullying org

PS2: Acho muito importante dizer que só colocar a culpa na escola não é correto. Eles têm que ficar atentos sim, mas nem sempre é facil detectar estas coisas no início. No caso do Eduardo, não havia nenhum tipo de violência física e ele não reclamava de nada. Imagino que todo mundo o via conversando com a menina e não imaginava que naquele momento ela o estaria ameaçando.
 
Por outro lado, agora todo mundo sabe que eles NÃO são amigos. Logo eu espero que a escola proteja meu filho e não deixe que ela se aproxime mais dele; pelo menos não deixem os dois sozinhos.