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Sorte que eu sou Latina

Há mais ou menos um mês e meio eu iniciei minhas aulas de inglês em um novo Linc. Agora ao invés de aulas exclusivamente de gramática, eu tenho tido muitas oportunidades de conversar com o professor e com meus colegas de classe.


Neste curso eu me propus a perder a timidez e tentar me expor o máximo possível, e tem dado certo: tão certo que discuto com o professor quase diariamente porque geralmente discordamos um com o outro. Como ele também percebeu que eu sempre discordo das idéias dele, ele fica me provocando a aula inteira com um risinho sarcástico. E já deve ter percebido também que eu não preciso de muita provocação pra dar a minha opinião, rs.


Ao mesmo tempo, eu tenho tentado entrar em contato com a maioria dos colegas e assim, aprender mais sobre outras culturas. Nem sempre é facil, mas tem sido muito interessante. O que me choca geralmente é perceber que a maioria deles vive em guetos dos seus países de origem. É bem verdade que nós praticamente só conhecemos brasileiros por aqui e também é verdade que não é tão facil fazer amizade com os imigrantes, mas pelo menos meus filhos não estão presos somente a brasileiros. Tanto na escola do Edu como no Linc, as crianças falam inglês o tempo todo e mesmo o Edu que tem uma amiguinha brasileira, só fala com ela em inglês.

Para meu espanto, a maioria dos meus colegas têm filhos pequenos e apesar de ter vaga no Linc, todos eles preferem deixar os filhos em casa com alguem. Eu, ao contrário, faço questão de levar as meninas mesmo quando o Sergio está em casa. Tem sido muito bom para elas e com certeza fará muita diferença quando elas entrarem na escola já com uma certa fluência na lingua. 

Outra coisa que me espanta muito é ver as pessoas sempre esperando o momento em que vão retornar aos seus países de origem. Eu amo o Brasil, sinto saudades, mas tenho consciência de que as coisas por lá não vão mudar a ponto de eu querer voltar. Acho que neste sentido eu sou muito objetiva e não fico alimentando esperanças vãs. Só que no caso dos meus colegas a situação é ainda pior. De uma maneira geral o Brasil até que não é tão ruim quando comparado com outros lugares por aí, rs.

É muito triste ver que as pessoas estão aqui sem querer estar; a maioria deles não gosta do Canadá e esta aqui meio que obrigado. Vivem tentando levar a vida que levavam antes e querendo que o Canadá se adapte a eles e não o contrário.

Eu me lembro dos meus avós, que apesar de sentirem saudades de seus países de origem nunca se fecharam em colônias isoladas no Brasil. E amavam a terrinha verde-amarela como se tivessem nascido nela. Minha tia que foi para o Brasil aos 4 anos até se ofende se alguem diz que ela é portuguesa. "Eu nasci em Portugal", ela diz, "mas eu sou brasileira!"


A tese do meu professor é bem diferente desta. Segundo ele, nós devemos manter a nossa cultura para os nossos filhos porque no futuro eles não serão aceitos como canadenses e sofrerão preconceito. Posso estar muito enganada, mas acho que se nossos filhos se adaptarem à cultura canadense eles não terão porque sofrer preconceito. Não é possível que os jovens canadenses passem suas vidas apontando os imigrantes para exclui-los. Na verdade, eu sinto que os imigrantes sim é que têm medo que seus filhos se tornem canadenses e se esqueçam dos seus países. No fundo eu tenho a sensação de que meu professor e outros colegas recem chegados querem passar para seus filhos aquele sentimento nacionalista: eu nasci em ****** e lá é o meu país.
De verdade eu acho isso uma grande bobagem. Eu quero que meus filhos falem portugues porque vai ser bom para eles, para a cultura deles, para manterem contato com a familia no Brasil. Eu quero que meus filhos conheçam as coisas do Brasil porque é legal, porque eu acho que vai enriquece-los em conhecimento, porque faz parte da história deles e vai ajuda-los a entender muitas coisas que eles vivem aqui em casa, mas sem esta obrigação de manter a cultura brasileira intacta, sem a obrigação de se casar com descendentes da terrinha.


Eu quero que eles conheçam as coisas do Brasil porque eu gosto delas, porque acho que podem ser legais pra eles, porque vão trazer cultura e conhecimento, mas eles têm todo o direito de preferir um jogo de hockey a uma final de copa do mundo, ou trocar meu arroz com feijão pela pizza hut, ou preferir o Neil Young ao Zezé de Camargo e Luciano (essa eu assino embaixo, rs).


E se um dia, o Edu chegar aqui em casa com uma esa (chinesa, paquistanesa, polonesa, singalesa) ou ana (indiana, mexicana, ucraniana, sul africana) qualquer, ela vai encontrar sempre as portas abertas. Mesmo se ela for de Camarões, será bem aceita (mas esta é outra história que eu conto no próximo post, rs).