Oct 29, 2010

Inclusão

A minha experiência na escola católica tem sido muito diferente de todas as experiências que tive nas escolas anteriores. Não que eu tenha qualquer reclamação sobre as escolas públicas em que o Edu estudou no ano passado; seria até injusto dizer algo assim porque sempre fomos muito bem tratados em todos os lugares. Especialmente na Mill Valley, onde ele fez o grade 1, tivemos um tratamento que nunca recebemos no Brasil. A diretora era realmente muito gentil e solícita, mas eu diria que ela não era exatamente inclusiva.

Pode ser que esta é uma característica pessoal desta escola, mas em todos os voluntariados que fiz na escola no ano passado a sensação que tive foi sempre a mesma: eu era um peixe fora d'água e estava mais atrapalhando do que ajudando.

Mas apesar de conhecer todo mundo na escola, o Eduardo não estava exatamente inserido. Ele participava ativamente das atividades escolares mas nunca foi convidado para uma festa de aniversário, pra ir na casa de uma amiguinho ou qualquer outra coisa fora da escola.

Da mesma forma eu, só conhecia as duas brasileira que tinham filhos na escola, porque as outras mães e avós, já tinham seus grupos fechados e a maioria delas sequer me cumprimentava, mesmo me vendo todos os dias.

Desde que o novo ano letivo começou na escola católica eu senti que uma experiencia diferente estava por vir. A diretora, apesar de muito solicita e gentil também, me parece bem mais ocupada que a anterior. Ao contrário da Mill Valley, na escola católica onde meus filhos estudam a diretora não é a primeira pessoa que vc encontra ao entrar na escola. Tem uma secretária na comissão de frente que serve de peneira, rs. De qualquer forma, sempre tive total acesso à diretora.

Nas duas escolas, os funcionários são sempre educados, prestativos, compreensivos e sempre recebemos bilhetes solicitando que os pais se voluntariem para ajudar nas atividades da escola. Eu sempre sou voluntária com a condição de poder levar minhas filhas comigo. Se anteriormente isto era impeditivo para todas as atividades, este ano tem sido encarado como uma coisa super positiva. Algo como: é bom que elas participem pra já irem se ambientando com a escola.

Na festa de Halloween eu não só levei a Luisa comigo, como ela participou de todas as atividades. Pela primeira vez eu me senti verdadeiramente incluída. As mães voluntárias não só sabiam quem eu era e quem eram os meus filhos, como estavam me esperando: elas sabiam que eu tinha me voluntariado. E eu não fui largada em um canto tentando encontrar alguma coisa pra fazer. Assim que cheguei, algumas já vieram me receber, fizemos as apresentações formais (porque todo mundo me conhecia) e elas já me explicaram como as coisas funcionam, o que eu poderia fazer, o que ia acontecer e muito mais.

Foi uma manhã divertidíssima, participando de uma festa que faz parte da cultura local com todos os simbolos do halloween e sem aquele monte de superstições e medos e proibições que as pessoas se impoem por causa de religiao. Todo mundo alí apenas para se divertir em uma festa à fantasia super inocente.

Eu realmente me senti em casa, me senti bem, me diverti e principalmente: vi meus filhos se divertindo, participando, brincando, se integrando em uma cultura que no final tem muitas coisas em comum com a nossa.

Ao mesmo tempo meus filhos estão conhecendo uma história que eles desconheciam (por minha culpa): a história do cristianismo, a histõria do povo judeu, a história que orientou toda a minha educação e cultura. De repente eu percebi que por não querer impor uma religião aos meus filhos, eu não dei a eles opções para escolha e pior, não estava dando a eles o conhecimento.

Então me lembrei de um comentário que a Marilda (minha leitora de British Columbia) fez logo que cheguei por aqui: dizendo que todo mundo tem religião e eu estava tirando dos meus filhos a possibilidade de ter uma também. Naquela época eu achei bobagem, mas acho que ela estava totalmente certa. Hoje eu acho que minhas crianças precisam de uma religião, que está sendo bom pra eles, para tranquiliza-los, para dar segurança, para ensinar bons princípios. Princípios estes que mesmo não seguindo nenhuma religião, nós temos e seguimos.

Ainda não quero impor uma religião para meus filhos e por isso nunca vou obrigar ninguem a ir na igreja: não quero ninguem lá por medo, por obrigação ou por interesse, mas quero que eles saibam que existe uma religião que eu segui, que foi boa pra mim e que eu acredito que será boa pra eles se eles quiserem. Eu vou mostrar os caminhos que conheço e dar minha opinião sobre eles, mas a escolha, eu quero que seja feita por eles.

Pra mim, particularmente, também tem sido super positivo. Em poucos dias muitas mães vieram conversar comigo. Apesar da minha dificuldade em falar, já conheço muitas mães e já sou conhecida por elas. Não posso dizer que tenho amigas na escola, mas pelo menos tenho com quem conversar enquanto espero o Edu e a Helena.

O Edu já foi na casa de um amiguinho, já tem um grupo de 4 amigos inseparáveis, que fazem varias coisas juntos e, esta semana eu convidei uma das mães para trazer os filhos aqui em casa. Aos poucos estamos conhecendo as pessoas e criando laços. Pode ser que a maioria destas amizades não dê em nada, mas já existe uma porta aberta.

Por estas e por outras, a escola católica, está sendo uma experiência super positiva para nós. Ali eu tenho conseguido enxergar muitas coisas que não percebia antes. Situações que este multiculturalismo torontiano coloca no nosso caminho o tempo todo e que dificulta muito a nossa vida, a nossa adaptação. Convivendo muito com imigrantes a gente acaba formando uma visão meio estranha do Canadá e acaba achando que só da pra viver por aqui se vc se unir ao gueto brasileiro.

Na escola católica estamos encontrando pessoas mais parecidas com a gente: uns frequentam a igreja e são fervorosos, outros vão em batismo, casamento e missa de setimo dia, mas todos têm algo em comum com a gente: o mesmo tipo de pensamento e infelizmente, isso tem feito toda a diferença.

Oct 12, 2010

Cobiça

Ainda na linha "pecados capitais", eu fico impressionada como existem pessoas invejosas e maldosas no mundo: em qualquer país, raça, religião, cultura.

Nós temos um corolla 2006, o mais simples possivel, mas que foi muito bem cuidado pelo antigo dono e continua sendo por nós. Tanto nós, como o antigo dono, não rodamos muito com ele e portanto ele tem somente 50000 km, o que para o Canadá é pouquissimo.

A semana passada o Sergio resolveu ajudar o seu chefe a carregar algumas coisas que a empresa doou para a igreja perto da casa dele (do chefe). Quando os dois estavam colocando as coisas no carro, um outro funcionário se aproximou e começou a sabatina:

- Bonito o seu carro. Que ano é?
- 2006.
- Quantos km?
- 50000.
- Vc comprou zero?
- Não, em 2006 eu nem estava no Canadá.
- Ha quanto tempo vc está aqui?
- Há 18 meses.
- Hummmmm, 18 meses e já tem um carrão desses!!!!????

O Sergio deu uma amenizada explicando que no Brasil os carros são mais caros e que com o valor que vendemos nosso carro 2005 no Brasil deu pra comprar esse e ainda sobrou dinheiro (completamente verdade, rs). Mas esta conversinha mostrou que em determinados lugares e com algumas pessoas o melhor é não se expor.

Uma amiga conheceu uma brasileira em um curso de inglês.  Tudo começou errado quando a fulana se apresentou para a classe como enfermeira e depois minha amiga descobriu que ela era na verdade auxiliar de enfermagem. Pra que mentir? Bom, sei lá...

Quando minha amiga falou o bairro onde morava e que morava em casa, teve que ouvir aqueles comentários que bem conhecemos:

- Nossa, o aluguel naquela região deve ser caríssimo, né? Ainda mais em casa!!!!

Helooooo!!!! Isso é da conta de alguem? Eu te devo alguma coisa???? Vc me conhece??? Conhece a minha história??? Sabe alguma coisa da minha vida pra ficar tirando conclusões???

Que coisa mais chata e inconveniente!!! Por isso que o Sergio tem que mentir no trabalho: não pode dizer que é engenheiro, que tem grande experiencia na área dele... doutorado então... ele nem sabe que o que é isso.

É como se vivesse uma vida dupla sendo quem ele é em casa e sendo um simples trabalhador braçal, sem cultura, educação e estudo para os amigos do trabalho. Nem convidar o chefe pra vir aqui em casa não podemos. Apesar de parecer ser uma cara super legal temos medo da reação dele.

Oct 10, 2010

Em casa

Hoje tivemos um almoço agradável com amigos, seguido de um cafezinho delicioso e muita conversa que se extendeu por toda a tarde, já tentando entrar noite a dentro. Foram horas de conversa initerrupta, discussões filosoficas, políticas, religiosas... pontos de vistas completamente diferentes mas com objetivos muito parecidos... enfim, tudo muito bom.
 
Mas agora pensando em toda nossa conversa, eu percebi o quanto estamos ligados ao Canadá e o quanto nos desligamos do Brasil neste período de pouco mais de 1 ano e meio. Ficamos horas alí conversando sobre o futuro do Canadá, sobre as eleições para prefeito de Toronto, ficamos comparando as escolas... não mais as escolas brasileiras com as canadenses: ficamos comparando as escolas católicas com as publicas. Discutimos nossos sentimentos, nossas estratégias de auto-preservação neste mundo multicultural; muitas discussões filósoficas, de idéias, previsões para o futuro deste país que para nós 4 (dois casais) é agora a nossa casa.

Se falamos do Brasil? Claro, como apagar a maior parte da nossa vida? Mas agora de uma forma muito mais distante. Para mim, particularmente, é como se minha família e amigos tivessem imigrado para o Brasil e eu estivesse aqui preocupada por eles, rs. A minha casa é aqui e os problemas que realmente me afligem, me preocupam são os problemas do Canadá, da privíncia de Ontário, da cidade de Toronto.

100% das pessoas se assustam ou se admiram quando eu digo que não sinto saudades. Parece muito frio, eu sei, mas o fato é que não sinto falta e não passa pela minha cabeça aquela dúvida de imigrante: "será que eu fiz a coisa certa?". As vezes eu me questiono, sim: tenho dúvidas enormes em relação a todo o processo de imigração. Me pergunto se escolhi bem a cidade, se viver em Ontario é mesmo o melhor para nós, se escolher o Canadá foi mesmo uma boa idéia. No entanto, a imigração não entra em questão: tenho certeza absoluta que o Brasil não me pertence mais e que eu não pertenço mais a ele.

Oct 7, 2010

Como antigamente

As vezes, ou melhor, muitas vezes, eu sinto como se tivesse voltado à minha infância. Esta tranquilidade e simplicidade que as vezes encontro aqui no Canadá me lembra o Brasil dos anos 70. É bem verdade que a lógica deles nem sempre é simples aos meus olhos, mas nada que com um pouco de paciencia a gente não consiga entender.

Como o horário da escola aqui e´semi integral ( da 9 até as 3 da tarde) eu ainda não tinha conseguido me organizar com a alimentação do Edu. É bem verdade que meu filho querido é meio chatinho na hora da comida e esta história de lanche tem me dado muito trabalho.

O Eduardo não gosta de pão no almoço, a menos que seja torrado. Mas o pão torrado tem que estar quentinho senão ele não come. Ele gosta mesmo é de comida de verdade: arroz, carne, salada... mas a comida tambem tem que estar quentinha, senão ele não come. As minhas  manhãs se tornaram entao super trabalhosas tentando convence-lo a levar alguma  que realmente alimente na lancheira.

Uma opção seria busca-lo para almoçar em casa todo dia, mas pense comigo: eu levo todo mundo pra escola as 9, pego a Helena as 11, teria que esperar o Edu até as 11:30 e depois retornar para leva-lo as 12:30, sem contar que as 3 teria que ir busca-lo novamente.

Então, descobri que eu posso levar almoço pra ele na escola. Eu deixo o almoço quentinho, entrego na recepção da escola (tem uma mesinha propria pra isso), eles ligam para a classe no horario do almoço avisando as crianças que têm almoço "esperando" na recepção e pronto: ele tem almocinho quentinho e saudável. E eu não tenho trabalho nenhum já que entrego o almoço no horário que vou até a escola pegar a Helena.

Como as escolas aqui em Toronto costumam ser pequenas, fica super fácil porque a maioria dos alunos é conhecida pelo nome, todo mundo sabe quem é quem e nao tem muita confusão.

Já a Luisa Elena pode levar sua "marmitinha" fria mesmo porque na high School tem microondas para esquentar o almoço. Quer coisa mais prática?

Mantendo o Português das crianças

- Mama, eu posso comer as sereias? - Acho melhor voce comer as cerejas!