Jul 31, 2011

Uniforme and dress code

Quando as crianças estavam na escola do Brasil, eles usavam uniforme e eu apesar de achar super prático ficava meio brava com os preços. Era super caro e eles só permitiam que os uniformes fossem de uma determinada loja (que vendia os uniformes dentro da escola). Não era raro as crianças "perderem" blusões, maiôs da natação e as vezes até calça ou camiseta, mesmo com nome.


Quando decidimos mudar as crianças para a escola católica, no ano passado, eu achei que eles teriam que usar uniforme também porque as escolas católicas que eu conhecia na região exigiam. Mas na escola das crianças não era obrigatório e os pais votaram contra em uma votação que foi feita na escola naquele ano. Só que agora, a "secretaria da educação católica" de Toronto resolveu que todos os alunos do Board (a tal secretaria em traduçao livre) devem usar ou uniforme ou o dress code.


A diferença é que o uniforme tem o logotipo da escola e portanto só é vendido em determinadas lojas, provavelmente onde é feito. O Dress Code (roupa apropriada, em tradução muito livre) é a determinação de uma cor  (geralmente duas) que os alunos devem vestir. No caso da Mother Cabrini as crianças devem usar calça ou saia azul marinho e camiseta branca ou azul marinho. As camisetas não podem ter desenhos e é proibido o uso de calça jeans.


Pela primeira vez, desde que estou aqui, eu prestei atenção nas lojas de roupas infantis na oferta de uniformes escolares. Eu fico me perguntando se eles sempre estiveram ali nesta época e eu nunca havia prestado atenção ou se realmente só começaram aparecer por causa desta determinação das escolas católicas.


O fato é que encontramos varias opções de modelos, tecidos e preços na maioria das lojas que costumo comprar roupas para eles normalmente. Como varias coisas aqui, parece que os uniformes tambem são vendidos somente em determinadas épocas do ano (seasonal) e na maioria das lojas eu ja nao tenho encontrado muitas coisas, ou pelo menos não no tamanho que sirva nas minhas crianças. Espero que eles sejam vendidos o ano inteiro porque a gente sempre precisa de alguma coisinha no decorrer do ano letivo.

Jul 30, 2011

Hora de ensinar organização!!!

Muita gente acha que eu sou muito "permisciva com meus filhos: dou muita liberdade para eles falarem, decidirem coisas e participarem de conversas de adulto. Eu acho que sou mesmo e de certa forma esta é a proposta. Eu quuero sim que eles tenham voz ativa na decisões, que aprendam desde cedo a escolher entre todas as opções e que tenham liberdade de me falar sempre o que estão pensando ou sentindo.

É claro que muitas coisas eu decido sozinha, até porque eles ainda não podem tomar algumas decisões, mas normalmente eu pergunto o que eles querem, do que gostariam, ou dou algumas opções para eles pegarem uma. Não é facil na cabecinha deles porque muitas vezes eles querem tudo e sofrem muito quando têm que abrir mão de algo que realmente gostam para ficar com outra coisa que gostam muito também. Mas infelizmente eles precisam aprender estas coisas.

Mas por mais que eu tente ensiná-los a se virarem sozinhos, o meu lado "mãe brasileira" as vezes toma conta das minhas ações e aos poucos eu estou percebendo que tem muito da mãe brasileira agindo na educação das crianças. Por mais que eu tente fazer diferente, eu acabo não tendo muita paciencia de esperar o tempo deles para fazerem as coisas ou para aprenderem a fazer do jeito que eu acho certo. E que tem acontecido... eu me sobrecarrego juntando brinquedos, organizando roupas, preparando as refeições e muitas vezes tendo que dar na boquinha de todo mundo porque eles estão mais preocupados com o desenho animado ou combunando o que vão fazer após o almoço e não podem perder tempo levando o garfo até a boca.

O fato é que as férias acabam se tornando super cansativas porque eu quero fazer tudo e ainda dar atenção aos três, cada um com as necessidades da idade e fico super frustrada por não conseguir me dividir em tantos pedacinhos :(

Enfim... catástrofe!!! Eles não desenvolvem os skills que eu gostaria que tivessem, eu não dou conta de fazer tudo o que gostaria, eles se frustram porque ficamos todos entediados e mau humorados porque as coisas não saem exatamente como a gente queria e por ai vai, rs...

Pensando nisso, estas ferias estou tentando fazer as coisas um pouquinho diferentes. A casa coitadinha está pagando um pouco o pato porque está meio abandonada na sua bagunça perene. Ao invés de dias de limpeza, eu tenho feito pequenas organizações diárias que não aparecem mas que efetivamente me ajudam a ter menos trabalho. Ao mesmo tempo estou dando pequenas tarefas diárias para as crianças que não as sobrecarregam, me ajudam muito e ainda desenvolvem nelas certos skills que eu acho super importantes.

Em doses homeopáticas eles estao aprendenndo a organizar o proprio quarto, arrumando as camas, guardando as roupas que largam jogadas e juntando os brinquedos. Após as refeições eles ajudam a tirar a mesa e de vez em quando passam o aspirador no chão. E cada um guarda a propria roupa que eu lavo e dobro. Apesar de não ficar exatamente como eu gostaria, tem sido muito interessante ver o que cada um enxerga como organização, rs. E neste momento eu quero apenas que eles aprendam a cuidar das proprias coisas.

Estou montando também um calendário para ensina-los a se organizar no tempo. A princípio vamos anotar no calendario as datas de entrega dos livros da biblioteca e com o tempo eu vou inserindo outras coisas para eles sozinhos se organizarem com datas e compromissos. Vamos ver no que estas ideias vao dar.

O mais dificil na verdade é a mãe se organizar para conseguir fazer todas estas coisas com eles, ensinando como tudo funciona, mostrando os "segredinhos" sem fazer tudo por eles ou deixa-los fazer de qualquer jeito só pra ir brincar. Mas também não quero que estas atividades se tornem um fardo e que eles passem o dia inteiro enrolando para fazer as coisas e não consigam brincar.

Vida selvagem de Toronto

Bastou entrar o verão e recomeçamos nossos passeios pelas ruas do bairro todo final de tarde. Cada vez fica mais legal sair com as crianças porque aos 7, 5 e 4 anos eles já aguentam longas caminhadas sem pedir colo ou reclamar que estão cansados. A Luisa ainda pede um colinho de vez em quando mas a cada dia caminha mais e com mais independência. E com tantos parks, trilhas e ruas arborizadas, é sempre muito agradável passear nestes dias lindos que o verão de Toronto nos presenteia.

Outra coisa que eu amo por aqui é o fato de anoitecer super tarde, em torno de 10 da noite. Assim, podemos jantar e ainda ter muitas horas de dia para aproveitar.

Só que aqui no Canadá animais selvagens são sempre protegidos e podem fazer o que bem entenderem: o direito é deles e pronto! Os patos atravessam grandes avenidas na maior tranquilidade: as vezes estão indo e resolvem voltar e os motoristas têm que ficar quietinhos esperando a boa vontade deles. Os guaxinis entram nos nossos quintais, viram o lixo, fazem coco no jardim ou invadem nossos telhados para terem seus filhotes e vc tem que resolver o seu problema por conta propria porque a prefeitura não faz nada que possa prejudicar os pobres animaizinhos.

No parque que fica a 100 metros da minha casa, tem várias placas avisando que existem coiotes morando na região e que não devemos nos aproximar deles nem alimentá-los. Avisam também para tomar cuidado com animais de estimação porque podem ser atacados pelos coiotes.

Ontem, andando por uma trilha aqui da região, avistamos um "cachorro" ao longe. Quando nos viu, ele ficou paradinho olhando para nós e esperando. Ao nos aproximarmos um pouco mais percebemos que não era um cachorro e sim uma raposa. O Sergio imediatamente pegou a Luisa no colo e fomos caminhando bem devagar naquela dúvida do que fazer: dar meia volta ou seguir a trilha e passar proximo do bicho. Como a figura não parava de nos olhar, achamos melhor dar meia volta e qual não foi nossa surpresa quando ela veio atrás da gente, mantendo uma certa distância.

A principio eu até achei engraçadinho, mas confesso que depois de uns 2 minutos sendo seguidos pelo animal eu comecei ficar com medo. Saimos da trilha na primeira saída que apareceu e assim que chegamos à rua olhamos pra ver se ela ainda nos seguia. Ela estava lá, escondida no meio das árvores mas não saiu atrás da gente. Vimos então duas meninas paradas na entrada da trilha conversando e avisamos que havia uma raposa por alí. Alguns metros adiante vimos mais duas meninas se aproximando e as 4 ao se encontrarem conversaram um pouco e deram meia volta também.

No dia seguinte fomos fazer nossa caminhada novamente, mas não entramos na trilha porque já estava bem mais escuro que no dia anterior. Ficamos andando pelas ruas e acabamos nos encontrando com uma possivel presa da raposa: um coelinho selvagem muito comum pelas redondezas, que adora fazer visitas aos quintais das casas.

Apesar de estarmos na rua, de vez em quando, eu dava uma olhadinha para trás pra ver se não tinha nenhuma raposa nos seguindo: precaução de paulistanos, rs!!! A Luisa, coitadinha, assim que escureceu não quis mais ficar no chão.

Jul 20, 2011

Brincadeiras de criança

Uma das grandes coisas que o Canadá me trouxe foi poder voltar a ser criança... ou pelo menos poder proporcionar para os meus filhos as coisas legais que eu tinha na minha infância, sem que eles percam as coisas legais que as crianças podem ter hoje. Da mesma forma que eles adoram ficar na frente da TV jogando wii ou no computador com os joguinhos de internet, eles também têm a liberdade de andar de bicicleta na rua e brincar livremente no quintal e nos parques da cidade. E como tem parques e opções de lazer nesta cidade.

Em casa temos feito varias coisas legais que eu vou ensinando e eles adoram: pular corda, pular elástico, tirar elástico, jogar pedrinhas, pedra-papel-tesoura. E agora estou ensinando a turminha fazer bolinha de chiclete!!!!

Tá, eu acho horrível vc conversar com uma pessoa fazendo bolinha de chiclete. Mas eu adoro fazer!!! Na rua eu tento me controlar porque acho muito mal educado, mas em casa sempre faço e as crianças amam esta história . Agora todo mundo quer treinar!!! Tb ensinei todo mundo a fazer a "amarelinha brazilian style" porque aqui é um pouquinho diferente e eles acham o máximo quando os amiguinhos dizem: "mas não é assim" e eles podem dizer: este é o "estilo brasileiro", rs.

Agora minha nova travessura está sendo tentar colocar um pneu pendurado na árvore que eu tenho no fundo do quintal. Infelizmente os galhos dela são muito altos e estou com um pouco de medo, mas estou pensando em uma maneira de prender a corda no tronco da árvore para não balançar muito alto... sei lá, vou fazer alguma coisa pra poder fazer o tal balanço.

Ao mesmo tempo que eu ensino, também vou aprendendo as brincadeiras que eles trazem da escola e estou sempre procurando coisas novas para brincarmos juntos.

E o video game??? Bem, eu tb adoro jogar o super mario e nos dias de muito calor, nada melhor do que ficar na sala curtindo um ar condicionado porque brincar no quintal é quase impossível. O importante é tentar manter o equilíbrio e fazer um pouquinho de tudo e curtir ao máximo o verão canadense porque apesar de vir com força total, ele sempre fica por pouco tempo!

PS: o meu grande aliado na descoberta de brincadeiras, musicas, filmes e muitas outras coisas tem sido o YouTube. Sempre que preciso fazer alguma coisa que não sei ou não lembro como faz eu corro para o santo YouTube para descobrir. Ele já me ensinou a comer uma fruta diferente que eu não conhecia e a dar nó na grava para o Sergio, rs. E eu encontro dezenas de brincadeiras de criança diferentes para ensinar para os meus filhos.

Com um site que converte os vidos do YouTube para arquivos MP3 eu gravo músicas infantis que não consigo encontrar por aqui e ainda consegui encontrar um site com varios filmes em portugues para as crianças "treinarem".  Assim, vamos mantendo o portugues afiado e ao mesmo tempo desenvolvemos novas habilidades.

E depois um monte de gente tem a coragem de perguntar se eu não trabalho!!! Que culpa tenho eu se meu trabalho é divertido, apesar de não remunerado!

Jul 19, 2011

Estacionar na rua sem saída

Como tudo por aqui, estacionar também é uma arte a ser aprendida. Na minha rua só se pode estacionar do lado direito da rua e nos lugares onde a placa permite. Além disso, é preciso tomar muito cuidado com os hidrantes: multa para quem estacionar em frente um deles.

Mas uma coisa que é realmente diferente nas ruas sem saída é que muita gente usa o centro da rotatória do final de rua como estacionamento. É como se houvesse uma rotatória no centro da rua para se fazer o retorno. Como não tem, os moradores usam esta parte vazia no centro para estacionar, deixando espaço para as pessoas que querem sair de suas garagens ou simplesmente fazer o retorno.

A primeira vez que eu vi isso foi quando entrei nesta rua para dar uma olhada na minha casa, mesmo antes de achar que poderia compra-la. Depois disso eu comecei prestar a atenção e vi que em varias outras ruas sem saída do bairro, as pessoas fazem a mesma coisa.

Imaginem que com duas festas aqui na rua, 6 carro puderam fazer uso deste estacionamento improvisado. E eu acho que não deve ser proibido, porque se fosse, com toda certeza o vizinho rabugento teria chamado a polícia, afinal, ele não passou o dia inteiro no portão só para cumprimentar os convidados das festas.

Jul 14, 2011

Meu filho, vc não merece nada

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada



Eliane Brum


ELIANE BRUM


Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).


E-mail: elianebrum@uol.com.br

"Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.


Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.


Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.


É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?


Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.


Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.


Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.


A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.


Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.


Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.


Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.


Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.


O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.


Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.


Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.


Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.


Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba."

 
Eu gostei muito do texto da Eliane Brum, publicado na revista época. Acho que vale a pena ler e pensar sobre a educação estamos dando para nossos filhos.


Eu não acho que este seja apenas um problema da classe média, como ela cita. Eu acho que este problema está generalizado em toda a sociedade brasileira e infelizmente em outras sociedades também. Aqui no Canadá tenho visto muitos pais seguirem o mesmo modelo e muitas crianças estão sendo criadas sem saber lidar com as frustrações e também sem terem desenvolvido as habilidades.

Educar realmente não é uma tarefa facil: mas que graça teria se o fosse?

 

Jul 12, 2011

Sintoma de saudade

A gente sempre brincava com a Luisa Elena, dizendo que sentiríamos falta dela porque até um calo faz falta quando nos acostumamos com ele, rs. Ela sabe que nós a adoramos e que estamos sentindo muita falta dela!!! Mas nós não sabíamos que a sua ida iria abrir aquela ferida latente que todo imigrante carrega consigo a vida toda.

É claro que todo mundo sente saudade de alguma coisa, de alguma época da sua vida. Basta ter passado um momento bom e já sentimos saudades dele. Mas quando saímos do nosso país,deixamos pra tras não só o passado, mas também o presente. Nós estamos aqui no Canadá e as coisas continuam acontecendo lá no Brasil: as pessoas continuam vivendo e se relacionando e nós começamos a sentir saudade das coisas que não vivemos, das situações em que não estávamos presentes, do toque que perdemos, e até da fofoquinha que não pudemos fazer.


Meu sobrinho levou a namorada na casa da minha mãe para apresentar para a família. Hoje, quando conversei com minha mãe ao telefone, ela me contou tudo o que aconteceu e eu corri para o FB para ver a foto da moça, mas não é a mesma coisa. A internet nunca vai conseguir substituir o estar junto, os gestos, as risadas, os olhares, aqueles movimentos que só cara a cara a gente faz naturalmente.


Alem da deliciosa panqueca de carne moída que minha mãe fez e do vinho "batizado" que o pai sempre tem em casa, eu senti saudade de ter estado alí, conversando com todo mundo, ajudando a sabatinar a moça, rindo por dentro dos foras e todas aquelas coisas de almoço de domingo na casa da mãe, rs.


Ao mesmo tempo eu lamento todas as coisas que eles estão perdendo daqui de casa. 2 anos depois de termos deixado o Brasil, eu sei que as crianças estão irreconhecíveis e certamente estão muito diferentes do que eram quando chegamos aqui. Muitas coisas acontecem e eles nem ficam sabendo porque já fazem parte da nossa rotina.


E eu já fico me preparando para quando os meus bebês começarem a voar sozinhos e eu não puder mais estar junto, acompanhando... apesar de tentar prepará-los para este momento, eu já estou sentindo saudades.





Esta é uma das músicas que a minha mãe canta quando está preparando o café da tarde. Ela gosta de fazer café do jeito antigo, com filtro de pano que ela mesma faz. Depois que coa o café, ela adoça e a batidinha da colher nas laterais do bule enquanto mistura é a sua marca registrada. Eu cresci ouvindo esta batidinha enquanto ela cantava músicas da "época dela" como ela sempre diz.


E quando meu pai entra na cozinha ela diz: "o sol entrou nesta casa".


Claro que tudo isso quando ela está de bom humor, rs...


É, estou com saudade de casa, saudade do meu cachorrinho que morreu semana passada, saudade da Luisa Elena que foi embora a semana passada, saudade da minha vizinha que me ligava pra eu imprimir os resultados dos exames dela e aproveitavamos para bater um papinho enquanto isso, saudade de chegar na casa da minha mãe e meu pai comentar a passagem da biblia que ele estava lendo ou a discussão que ele teve com os testemunhas de Jeová que foram lá oferecer uma revistinha, saudade de subir a ruinha da minha mãe já ver a rodinha de vizinhas me esperando para verem as crianças e fazer uma fofoquinha básica. Estou com saudade do previsível: de saber o que eu tinha que fazer para poder fazer o que eu gostaria.


Jul 8, 2011

Código secreto

Esta história de falar uma lingua diferente da lingua local é muito legal em varias situações. Sempre tem aquele momento em que um código secreto te livra de uma enrascada ou facilita um comentário mais indiscreto.

As vezes a gente vê uma situação diferente, morre de vontade de comentar, mas não pode porque as pessoas poderiam não gostar. Aqui no Canadá, a gente manda ver no código secreto: fala em portugues e pronto! As vezes antes de dar uma resposta ou fazer um comentário, vc precisa de uma outra opinião ou uma dica a qualquer hora e pronto: lá vem aquela conversinha paralela em portugues.

Mas de vez em quando... o código secreto pode virar contra vc mesmo.

Estávamos na ilha há algumas semanas e o Sergio disfarçado de "polonês" escuta duas moças passando:

- "Eu não estou sentindo a minha bunda".

A outra pergunta algo que ele não entendeu e como resposta:

- "Não, a coxa eu estou sentindo".

Situações como esta são super comuns por aqui: sempre vc pode ouvir conversinhas engraçadas em portugues. Mas a direção oposta também é verdadeira.

Esta semana eu estava na fila do Tim Hortons e liguei para o Sergio. Quando comecei falar com ele em portugues, um senhor que estava na minha frente se virou imediatamente para ver quem estava falando. O problema é que por acaso eu estava olhando pra ele e ele ficou super sem graça. E não é raro nós estarmos conversando em algum lugar e perceber alguem prestando atenção com aquela cara de "estou entendendo tudo o que vcs estão falando, seus bobos".

No futebol do Edu não tem nenhum brasileiro, mas tem um pai da Nicaragua. Durante o jogo eu sempre converso com o Sergio em portugues e no último jogo fiz uma piadinha por causa de um chutão que o Eduardo deu. O pai nicaraguense não conseguiu esconder que ouviu e entendeu a piada: ficou um tempão rindo e tentando explicar para a esposa em ingles o que eu havia dito.

O código secreto pode ajudar muito em varias situações, mas se não for usado com cuidado pode nos colocar em situações bem embaraçosas.

PS: por muitos anos eu e o Sergio usávamos o ingles para falar coisas que não queríamos que as crianças entendessem: agora usando o portugues a chance deles não entenderem é maior, porque o ingles eles já dominam muito melhor do nós, rs.

Jul 2, 2011

144 anos

Ontem nós comemoramos os 144 anos do Canadá. Mas o Canadá Day não tem nada parecido com o desprestigiado 7 de setembro. Ao contrário de ser uma festa das forças armadas com desfiles de soldados na Av. Tiradentes: aqui é a festa dos canadenses comemorando o dia do seu país. E eles adoram esta data! É uma das únicas datas uma queima de fotos decente na cidade.


Mas muitos canadenses não têm a menor noção do que este dia significa para a maioria dos imigrantes que estão vivendo aqui: o primeiro de julho deveria ser o dia oficial da Liberdade. E o Canadá deveria ser oficialmente o país que promove liberdade. Mesmo os idiotas que não sabem o que fazer com ela, são totalmente livres para viverem oprimidos no Canadá, rs.


Assim que escureceu, quase 10 horas da noite, os fogos começaram no Centennial Park e provavelmente em muitos outras regiões da GTA. No gramado onde estávamos sentados, além de nós brasileiros, estavam uma amiga uruguaia, seu namorado descendente de chineses, muitos somalis, indianos, paquistaneses, ucranianos e vai saber quantas outras nacionalidades, alem dos muitos canadenses.


Fiquei ali vendo os fogos e agradecendo todas as oportunidades que o Canadá tem dado a tantas pessoas, inclusive à minha família. Porque na verdade, muitos países são bonzinhos, ajudam todo mundo, estão sempre metendo o bedelho na vida dos outros, invadem aqui, abraçam o presidente dali, fazem discurso contra isso e contra aquilo, mas no fundo mesmo, o único país que recebe as pessoas e dá a elas uma verdadeira oportunidade de mudar de vida é o Canadá.


Muitos países fazem vistas grossas com os ilegais, chegam até a dar escolinha e saúde para este pessoal conseguir ir sobrevivendo, mas assim que não precisa mais deles: pontapé!!!! O Brasil pelo menos faz algumas anistias periódicas e dá oportunidade a alguns ilegais latino americanos que vivem em regime de escravidão em São Paulo de terem a cidadania brasileira, mas não sei se estas pessoas conseguem depois da legalização mudar de vida efetivamente.


O fato é que o Canadá realmente tem feito alguma coisa. É obvio que ele não faz nada por altruísmo: o Canadá tem interesse nestas pessoas, especialmente nos seus fillhos. Mas ainda assim está fazendo alguma coisa: está verdadeiramente mudando a vida de milhares de famílias todos os anos.


Voltando às oportunidades, no mínimo, nós temos os mesmos direitos que qualquer outro canadense; pelo menos nós somos livres para ir e vir, para escolher nossa religião, se queremos ou não usar nosso véu (afinal de contas, todo mundo tem um véu de alguma forma), somos livres para pensar e expressar livremente nossos pensamentos.

Para nós que viemos do Brasil, estas coisas não parecem uma grande mudança, mas para grande parte dos imigrantes deste país, o Canadá faz uma grande diferença.

Se para os Canadenses o primeiro de julho é o dia de celebrar seu país, para nós imigrantes, deveria ser o dia de agradecer a existência deste Oasis, onde muitas pessoas têm a oportunidade de ter uma nova chance.

Em pensar que ainda existem idiotas que imigram, pegam sua oportunidade e sonham em restringir os direitos e a liberdade dos outros cidadãos devido ao seu fanatismo e preconceito. Pessoas que oprimem seus proprios filhos e tiram deles o direito à liberdade que o Canadá oferece. Para estas pessoas eu faço minhas as palavras de uma avó iraniana que vive hoje em Toronto:

"Quando nós não podemos tolerar as diferenças das nossas proprias crianças... e nós queremos que elas sejam como nós, estamos também fazendo uma espécie de ditadura." Mas como eu escrevi no post anterior, infelizmente muita gente simplesmente não consegue enxergar as oportunidades.

Obrigada Canadá!

Jul 1, 2011

Saber aproveitar uma oportunidade vale mais do que ter várias

Como boa brasileira que sou, eu sempre acreditei que as pessoas não conseguem fazer as coisas por não terem oportunidade. Como o Brasil é um país complicado no quesito das oportunidades, eu achava que as pessoas não saiam do lugar porque não tinham como faze-lo. Desta forma eu sempre achei também que eu era uma sortuda e que as oportunidades estavam sempre batendo na minha porta e o meu único trabalho era saber aproveita-las.


Com esta mentalidade eu imigrei para o Canadá acreditando que estaria porporcionando para meus filhos um mundo de possibilidades e que eles não precisariam ter sorte como eu tive: pra eles tudo seria mais facil. Como sempre, o Canadá está me ensinando que a coisa não é exatamente assim.


O Canadá é sem a menor sombra de dúvida um país de muitas oportunidades. Aqui só não faz alguma coisa quem não quer: as escolas são de uma maneira geral, excelentes e com um pouquinho de boa vontade vc pode até mudar de escola. Qualquer profissão é relativamente bem remunerada e sabendo fazer um Ó com um copo vc pode sempre conseguir alguma coisa melhor. E mesmo que vc tenha um emprego bem humilde, a educação e saúde está assegurada para todas as crianças, então mesmo as pessoas mais humildes podem virar o jogo através da educação.

O problema é que o ser humano é um animal estranho e mesmo com todas as oportunidades batendo à porta muita gente escolhe sempre o caminho mais fácil, menos trabalhoso. Por desconhecimento ou por acomodação as pessoas simplesmente jogam as oportunidades no lixo e não valorizam o que o país nos dá gratuitamente.

O número de jovens que simplesmente param de estudar após o high school é inacreditável e eu vejo na escola das crianças como muitos pais simplesmente não estão interessados na educação e vida escolar dos filhos. Para a maioria infelizmente, a vida escolar é completamente dissociada da educação que a criança recebe em casa e por isso eles não se envolvem nos assuntos da escola. As pessoas matriculam seus filhos nas escolas sem conhecer o mínimo sobre o método ou o desempenho da escola nos varios testes que todos os alunos fazem anualmente.

Ao mesmo tempo um monte de gente sequer conhece as bibliotecas da cidade ou os programas de esporte, as opções de lazer do bairro, os centros comunitários ou os parques da região. Existe uma total falta de interesse em relação ás coisas que acontecem à nossa volta o tempo todo. As pessoas têm preguiça de perguntar, de ir verificar e de experimentar coisas diferentes.

Todo mundo se espanta ao saber que meus filhos moram a 50 metros de uma escola pública e muito próximos de uma católica mas eu optei em colocá-los em uma escola mais distante por ser menor e ter melhor rendimento. E se espantam ainda mais quando descobrem que por não ser da minha região esta escola não me dá direito ao onibus escolar e eu tenho que leva-los e busca-los diariamente. 

Pessoas que estão aqui há anos me pedem dicas de programas, esportes ou outras coisas que fazemos e eles não sabiam que existiam. É interessante como as pessoas são fechadas para o novo e para tudo o que dê o mínimo de trabalho. Mesmo vivendo no país das oportunidades as pessoas preferem ficar paradas em suas novas zonas de conforto.

Por muito tempo eu me revoltei com este comportamento e tentei ajudar, mas descobri que não há muito o que eu possa fazer a não ser dar o exemplo. As vezes o proprio espírito de competição acaba ajudando as pessoas a se movimentarem, mas para muitos não há o que fazer. É uma pena.

Mas nestes dois anos de Canadá, vendo muita oportunidade ser simplesmente jogada no lixo, eu mudei minha percepção do Brasil. No Brasil existem muitas oportunidades e muitas possibilidades que batem à nossa porta todos os dias. Nada comparado ao Canadá, mas existem. Algumas pessoas conseguem enxerga-las e fazer uso delas, no entanto a maioria simplesmente não consegue. Mas isso não é um problema do Brasil ou do povo brasileiro. Isso é um problema da natureza humana e seja nas terra brasilis ou nas terras geladas do norte, não sei se há alguma coisa que se possa fazer para mudar isso.

Acho que o desafio dos pais, seja lá ou aqui, é ensinar aos filhos que nada cai do céu e que para se fazer qualquer coisa na vida é preciso dar pelo menos um passo em alguma direção.

Mantendo o Português das crianças

- Mama, eu posso comer as sereias? - Acho melhor voce comer as cerejas!