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Saber aproveitar uma oportunidade vale mais do que ter várias

Como boa brasileira que sou, eu sempre acreditei que as pessoas não conseguem fazer as coisas por não terem oportunidade. Como o Brasil é um país complicado no quesito das oportunidades, eu achava que as pessoas não saiam do lugar porque não tinham como faze-lo. Desta forma eu sempre achei também que eu era uma sortuda e que as oportunidades estavam sempre batendo na minha porta e o meu único trabalho era saber aproveita-las.


Com esta mentalidade eu imigrei para o Canadá acreditando que estaria porporcionando para meus filhos um mundo de possibilidades e que eles não precisariam ter sorte como eu tive: pra eles tudo seria mais facil. Como sempre, o Canadá está me ensinando que a coisa não é exatamente assim.


O Canadá é sem a menor sombra de dúvida um país de muitas oportunidades. Aqui só não faz alguma coisa quem não quer: as escolas são de uma maneira geral, excelentes e com um pouquinho de boa vontade vc pode até mudar de escola. Qualquer profissão é relativamente bem remunerada e sabendo fazer um Ó com um copo vc pode sempre conseguir alguma coisa melhor. E mesmo que vc tenha um emprego bem humilde, a educação e saúde está assegurada para todas as crianças, então mesmo as pessoas mais humildes podem virar o jogo através da educação.

O problema é que o ser humano é um animal estranho e mesmo com todas as oportunidades batendo à porta muita gente escolhe sempre o caminho mais fácil, menos trabalhoso. Por desconhecimento ou por acomodação as pessoas simplesmente jogam as oportunidades no lixo e não valorizam o que o país nos dá gratuitamente.

O número de jovens que simplesmente param de estudar após o high school é inacreditável e eu vejo na escola das crianças como muitos pais simplesmente não estão interessados na educação e vida escolar dos filhos. Para a maioria infelizmente, a vida escolar é completamente dissociada da educação que a criança recebe em casa e por isso eles não se envolvem nos assuntos da escola. As pessoas matriculam seus filhos nas escolas sem conhecer o mínimo sobre o método ou o desempenho da escola nos varios testes que todos os alunos fazem anualmente.

Ao mesmo tempo um monte de gente sequer conhece as bibliotecas da cidade ou os programas de esporte, as opções de lazer do bairro, os centros comunitários ou os parques da região. Existe uma total falta de interesse em relação ás coisas que acontecem à nossa volta o tempo todo. As pessoas têm preguiça de perguntar, de ir verificar e de experimentar coisas diferentes.

Todo mundo se espanta ao saber que meus filhos moram a 50 metros de uma escola pública e muito próximos de uma católica mas eu optei em colocá-los em uma escola mais distante por ser menor e ter melhor rendimento. E se espantam ainda mais quando descobrem que por não ser da minha região esta escola não me dá direito ao onibus escolar e eu tenho que leva-los e busca-los diariamente. 

Pessoas que estão aqui há anos me pedem dicas de programas, esportes ou outras coisas que fazemos e eles não sabiam que existiam. É interessante como as pessoas são fechadas para o novo e para tudo o que dê o mínimo de trabalho. Mesmo vivendo no país das oportunidades as pessoas preferem ficar paradas em suas novas zonas de conforto.

Por muito tempo eu me revoltei com este comportamento e tentei ajudar, mas descobri que não há muito o que eu possa fazer a não ser dar o exemplo. As vezes o proprio espírito de competição acaba ajudando as pessoas a se movimentarem, mas para muitos não há o que fazer. É uma pena.

Mas nestes dois anos de Canadá, vendo muita oportunidade ser simplesmente jogada no lixo, eu mudei minha percepção do Brasil. No Brasil existem muitas oportunidades e muitas possibilidades que batem à nossa porta todos os dias. Nada comparado ao Canadá, mas existem. Algumas pessoas conseguem enxerga-las e fazer uso delas, no entanto a maioria simplesmente não consegue. Mas isso não é um problema do Brasil ou do povo brasileiro. Isso é um problema da natureza humana e seja nas terra brasilis ou nas terras geladas do norte, não sei se há alguma coisa que se possa fazer para mudar isso.

Acho que o desafio dos pais, seja lá ou aqui, é ensinar aos filhos que nada cai do céu e que para se fazer qualquer coisa na vida é preciso dar pelo menos um passo em alguma direção.