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Sintoma de saudade

A gente sempre brincava com a Luisa Elena, dizendo que sentiríamos falta dela porque até um calo faz falta quando nos acostumamos com ele, rs. Ela sabe que nós a adoramos e que estamos sentindo muita falta dela!!! Mas nós não sabíamos que a sua ida iria abrir aquela ferida latente que todo imigrante carrega consigo a vida toda.

É claro que todo mundo sente saudade de alguma coisa, de alguma época da sua vida. Basta ter passado um momento bom e já sentimos saudades dele. Mas quando saímos do nosso país,deixamos pra tras não só o passado, mas também o presente. Nós estamos aqui no Canadá e as coisas continuam acontecendo lá no Brasil: as pessoas continuam vivendo e se relacionando e nós começamos a sentir saudade das coisas que não vivemos, das situações em que não estávamos presentes, do toque que perdemos, e até da fofoquinha que não pudemos fazer.


Meu sobrinho levou a namorada na casa da minha mãe para apresentar para a família. Hoje, quando conversei com minha mãe ao telefone, ela me contou tudo o que aconteceu e eu corri para o FB para ver a foto da moça, mas não é a mesma coisa. A internet nunca vai conseguir substituir o estar junto, os gestos, as risadas, os olhares, aqueles movimentos que só cara a cara a gente faz naturalmente.


Alem da deliciosa panqueca de carne moída que minha mãe fez e do vinho "batizado" que o pai sempre tem em casa, eu senti saudade de ter estado alí, conversando com todo mundo, ajudando a sabatinar a moça, rindo por dentro dos foras e todas aquelas coisas de almoço de domingo na casa da mãe, rs.


Ao mesmo tempo eu lamento todas as coisas que eles estão perdendo daqui de casa. 2 anos depois de termos deixado o Brasil, eu sei que as crianças estão irreconhecíveis e certamente estão muito diferentes do que eram quando chegamos aqui. Muitas coisas acontecem e eles nem ficam sabendo porque já fazem parte da nossa rotina.


E eu já fico me preparando para quando os meus bebês começarem a voar sozinhos e eu não puder mais estar junto, acompanhando... apesar de tentar prepará-los para este momento, eu já estou sentindo saudades.





Esta é uma das músicas que a minha mãe canta quando está preparando o café da tarde. Ela gosta de fazer café do jeito antigo, com filtro de pano que ela mesma faz. Depois que coa o café, ela adoça e a batidinha da colher nas laterais do bule enquanto mistura é a sua marca registrada. Eu cresci ouvindo esta batidinha enquanto ela cantava músicas da "época dela" como ela sempre diz.


E quando meu pai entra na cozinha ela diz: "o sol entrou nesta casa".


Claro que tudo isso quando ela está de bom humor, rs...


É, estou com saudade de casa, saudade do meu cachorrinho que morreu semana passada, saudade da Luisa Elena que foi embora a semana passada, saudade da minha vizinha que me ligava pra eu imprimir os resultados dos exames dela e aproveitavamos para bater um papinho enquanto isso, saudade de chegar na casa da minha mãe e meu pai comentar a passagem da biblia que ele estava lendo ou a discussão que ele teve com os testemunhas de Jeová que foram lá oferecer uma revistinha, saudade de subir a ruinha da minha mãe já ver a rodinha de vizinhas me esperando para verem as crianças e fazer uma fofoquinha básica. Estou com saudade do previsível: de saber o que eu tinha que fazer para poder fazer o que eu gostaria.