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Trauma de guerra

Eu não tive muita dificuldade em me adaptar ao Canadá. O frio, a comida, os costumes... Eu sinto saudades de pessoas, sinto falta de algumas coisinhas de vez em quando (pastel no momento), mas aprendi a viver bem aqui e até me divirto com certas esquisitices canadenses.

É claro que nem tudo é perfeito e de vez em quando eu mato as saudades da terrinha com as coisas que não funcionam por aqui. Ainda é impossivel não comparar e infelizmente o Canadá tem muitos dos nossos problemas mas pelo menos no quesito violência, o Canadá está bem na fita. é claro que temos violência por aqui também, mas o risco é baixo e dependendo de onde vc mora e dos lugares que frequenta, o risco é ainda menor.

De vez em quando eu vejo a polícia aconselhando as pessoas a trancarem os carros (na propria garagem ou nos estacionamentos) e é impossivel não rir. Uma amiga minha ficou muito brava porque os ladrões roubaram o GPS de dentro o carro dela. Eu levei o maior susto e perguntei se eles quebraram o vidro do carro e ela, com cara de espanto também: "não, a porta estava destrancada"!

Obvio, Mari: se o carro esta na sua garagem (leia-se: entrada da sua casa sem portão, nem cerca, nem nada que a separe dos vizinhos e da rua) vc não precisa trancar!!!!

E as pessoas não trancam mesmo: não trancam o carro,  não trancam a porta da garagem (onde se guarda de tudo menos os carros) e muitos, não trancam as portas de casa. Na verdade, eu já prestei atenção em varios vizinhos e das duas uma: ou eles abrem a porta da casa com controle remoto ou ela esta sempre aberta!

Acho que os unicos fulanos que perdem tempo destrancando porta nesta rua somos nós, rs.

E na verdade, todos aqueles "traumas" da violência do Brasil estão sempre por aqui. Eles ficam escondidos, disfarsados, as vezes até parece que me curei, mas bastou perceber uma pessoa andando atras de mim ou um barulhinho diferente pela casa para todo aquele medo voltar com força total e a gente começa todo aquele ritual da segurança novamente: atravessa a rua, anda mais rápido, segura a bolsa, ou sai andando pela casa inteira averiguando que não tem nada de errado.

De uma maneira geral, eu durmo muito melhor aqui do que dormia no brasil, mas de vez em quando acordo assustada, tenho aqueles pesadelos idiotas e acordo gritando ou vendo coisas no meu quarto. Nestes dias, eu tenho que levantar e ir de quarto em quarto para ver se está tudo bem com as crianças, rs.

O pior de tudo é que se eu paro pra pensar, eu percebo o quanto tudo isso é idiota, mas mesmo me achando idiota e rindo desta idiotice toda, eu tenho que ir ver as crianças, me sinto obrigada a segurar a bolsa e coloca-la na frente do corpo e muitas vezes começo andar mais depressa mesmo querendo andar devagar.

Um dia desses, eu sai da escola das crianças e um carro saiu de uma rua logo atras de mim e foi me seguindo até a rua da minha casa. Mesmo achando que ele não estava me seguindo, eu não entrei na minha garagem. Passei reto e fui até o final da rua e esperei pra ver se ele entrava ou seguia em frente. Certamente o cara nem percebeu que estava andando atrás de mim e as crianças ficaram muito admiradas quando passei reto pela nossa casa e fui para o final da rua (sem saída, diga-se de passagem).

Felizmente meus filhos não carregam nenhum resquicio desses "traumas" que me perseguem e nem dá pra explicar muito certas coisas que eu faço. O mais dificil é sentir medo e passar segurança a eles, mas no fundo eu bem sei que estamos seguros e que a maioria dos perigos pelos quais eu passo aqui são apenas fruto da minha imaginação.