Mar 25, 2012

Esse calor e o meu vizinho "favorito"

É só esquentar um pouquinho e fica dificil vir escrever no blog. Se há uma coisa que a gente aprende aqui no hemisfério norte é aproveitar cada raio de sol como se fosse o último!!!

Este inverno 2011/2012 foi uma enganação total em Toronto (e acredito que em todo o Canadá). As temperaturas foram bem generosas ficando sempre em torno de zero grau. Não nevou quase nada e o pouco que caiu do céu já vinha derretendo pelo caminho. Tivémos três ou quatro nevascas que acumularam no chão, mas em poucas horas estava tudo derretido.

Sem contar que temperaturas de 25 graus no mês de março nunca tinham sido vistas em Toronto antes.

Com o início do calor, os vizinhos começam sair de suas tocas para limpar o jardim e cuidar da vida (dos outros). Meu vizinho mau educado agora fica me esperando todo dia quando vou levar as crianças na escola. Por coincidencia ele sempre esta atravessando minha calçada quando eu chego e basta eu dar bom dia pra ele puxar um papinho.

São longas conversas de 30 a 40 minutos levando coices e patadas, rs.

Esses dias ele me disse que eu preciso limpar minha grama da frente (já limpei - sou super obediente) porque senao ela nao vai conseguir crescer. Quando eu disse que estou sem tempo, ele respondeu:

- Como sem tempo!!! Eu sou muito mais ocupado que vc e já limpei a minha. Veja a minha blue grass (é um tipo de grama) como está verdinha.

A minha reação foi cair na risada na cara dele! Ele lá brigando comigo e dizendo todas as coisas que ele tem que fazer e eu rindo.

No outro dia, ele me contou que era casado na Eslovenia e que quando foi passar 3 meses servindo o exército a mulher dele o traiu com o primo. Mas ele não condena o primo porque quem estava errada era ela, afinal ela tinha que se dar ao respeito.

Eu disse que os dois estavam errados porque afinal de contas, o cara é o primo dele. Mas ele fechou a questão: Não, ela é quem foi culpada. O primo só fez o que tinha que fazer!

Então eu disse: "é por isso que eu não trago nenhum amigo do sexo masculino aqui em casa quando o Sergio não está" e ele:

" É isso mesmo, vc tem que respeitar o seu marido e os vizinhos falam muito da vida dos outros nesta rua".

Num outro dia ele estava me contando que a filha era uma "galinha" quando era jovem. Ela fugia com namorados e ficava varios dias fora. E que agora ela não vem ajuda-lo a cuidar da esposa porque esta "procurando homem". Então ele disse: "eu não me casaria com ela nem se me oferecessem 1 milhão de dolares."

Mas o filho, que tb nao vem visita-lo, este está desculpado, afinal, homem é diferente. Eles são muito ocupados.

E eu fico ouvindo estas coisas e estou desistindo de discutir. Na verdade eu morro de pena dele e da solidão em que ele vive porque aqui na rua a maioria das pessoas nem o cumprimentam mais para não correr o risco de ter que ficar conversando com ele.

Pra sorte dele, eu sempre bato um papinho quando chego de manhã e,  à tarde, ele pega o filho da minha vizinha que está voltando da escola. Eu espero que nós dois (eu e o filho da vizinha) estejamos diminuindo um pouquinho a solidão deste senhor: rude, ignorante e machista, mas ainda assim, uma pessoa que precisa de um pouco de carinho.

Mar 20, 2012

No mundo das mães, pais não entram

Nas rodinhas em frente às escolas a presença feminina é muito superior à masculina. Muitos pais vão buscar os filhos na escola, mas geralmente conversam um pouquinho antes do sinal e assim que os filhos aparecem, eles somem junto com a criança.

Apesar de trocar duas ou três palavras com estes pais, as pessoas que realmente conheço na escola das crianças são as mães.

Vcs devem se lembrar do post sobre a mãe polonesa que "ia ver se a filha estava interessada em brincar com as meninas". A menina está interessada e esta semana o pai da menina veio conversar comigo e convidou a Luisa pra ir na casa deles. E durante nossa troca de palavras eu descobri que ele não está trabalhando no momento e fica cuidando da menina enquanto a esposa trabalha.

Eu, que sou uma mulher moderna, liberal e que acha que o homem deve ter os mesmos direitos e deveres que sua esposa... bem, eu fiquei assustadíssima, mas não consegui recusar!!!

O dia do convite foi um dia super confuso aqui em casa com voluntariado surpresa na escola de manhã, carro sem bateria em frente a escola na hora do almoço (o Edu almoça em casa!!!) e o pai de uma amiguinha ligando para saber porque a Luisa estava atrasada. E eu apavorada sem saber o que fazer!!!

Acabei levando a Luisa e empurrando a Helena junto e antes de sair de casa falei um monte de coisas pra elas (nenhum adulto pode passar a mão em vc, não sente no colo de nenhum adulto, não passe a mão em nenhum adulto, não tire a roupa na casa dos outros e se vc sentir medo por algum motivo saia correndo, grite por socorro e vá para a casa de algum vizinho).

Tá, acho até que eu exagerei, mas fiquei sem saber o que fazer, mesmo achando que o rapaz não faria nada de errado com elas.

Quando chegamos na casa dele, ele me convidou pra entrar, disse que eu poderia ficar e insistiu mesmo que eu ficasse. Mas eu resolvi não ficar. Deixei as meninas e voltei pra casa chorando (devo ser conhecida no bairro porque choro por qualquer coisa).

1 hora depois fui busca-las e ele insistiu que eu entrasse, conversamos um pouco e eu não vi nada de errado. Ele estava assistindo um jogo de futebol inglês e acho que nem estava prestando atenção nas meninas. Elas fizeram uma bagunça inacreditável na sala que estava arrumadinha quando chegaram: estavam andando de patinete, com vestidos de princesas, salto alto, comendo cookies pra todo lado... um caos.

Claro que fiz 500 perguntas para elas depois, mas tudo muito disfarsado para não assusta-las, rs.

Hoje ele as convidou para ir lá de novo, mas eu disse que agora é a menina que virá aqui em casa amanhã. Claro que vou convida-lo pra ficar (ai ai ai), mas acho que vai ser bem tranquilo.

Uma outra mãe, que mora a duas casas da dele, já me disse que não deixa a filha dela ir brincar lá quando ele está sozinho. Eu nem a condeno, porque é complicado mesmo: tudo pode acontecer quando vc está com uma criança e as vezes eu mesma fico constrangida quando alguma amiguinha vem aqui e nao sabe se limpar sozinha no banheiro ou como uma menina que já vai fazer 7 anos e não sabe nem tirar e por a calça sozinha!!! E eu fico imaginando o Sergio sozinho aqui com uma destas meninas.

Mas ao mesmo tempo, eu fico chateada porque nós mães acabamos condenando esta menina a ficar sozinha depois da escola porque as poucas mães que ele conhece não deixam as filhas irem na casa dele e ele não consegue entrar na rodinha feminina para que a filha seja convidada.

E se ele não tivesse esposa? E se um dia eu morrer? Poxa, é muito injusto!! Mas ao mesmo tempo, dá um medo absurdo de correr o risco.

Mar 17, 2012

Halifax

Estamos em Halifax há três dias aproveitando o march break. O Sergio conseguiu dois dias off no trabalho e então estamos podendo aproveitar bem o tempo juntos e matar as saudades. Eu imagino que ele nem vá sentir tanta falta quando formos embora visto a bagunça que fizermos no apartamento super organizado dele, rs. O apê é minúsculo e com três crianças trancadas aqui já da pra imaginar a bagunça.

Temos saído bastante, visitado todos os pontos turísticos e também alguns bairros residenciais para conhecer. Essa é uma mania que nós sempre tivemos desde que morávamos no Brasil: sair de carro meio sem rumo olhando os bairros, as casas, vendo as coisas que nos agradam e aquelas que não gostamos.

Tenho que dizer que minha primeira impressão da cidade não foi das melhores. Eu achei tudo muito antigo, diferente, mal cuidado. Acho que me influenciei um pouco pelos comentários que o Sergio fez da cidade e tambem por causa do dia horroroso. Estava um dia nublado, com céu carregado e aquela garoinha paulistana que eu sempre odiei. Sem contar que deixamos Toronto com 16 graus para aterrizar em Halifax com 4. O voo atrasou quase uma hora e já estávamos exaustos e famintos quando chegamos.

Aos poucos, porem, a cidade foi me cativando por coisas que os olhos não vêm mas que são faceis de perceber. SIM, as pessoas são muito mais amigáveis por aqui. Não houve um só lugar onde não fôssemos bem tratados, onde não estivesse todo mundo sorrindo. Ninguem buzina no trânsito, mesmo quando vc está perdido e não sai assim que o farol abre. Ninguem pula na sua frente para furar fila. Nenhum atendente te atende de mau humor ou chama o próximo enquanto vc nem pegou o seu troco.

Até para dar bronca as pessoas são gentis e educadas. A Luisa derrubou uma bandeira da Nova Scotia que estava na entrada do Museu Maritmo da cidade e o segurança alem de ter sido SUUUUUUPER gentil ao dizer que não podia mexer na bandeira, ainda agradeceu todo sorridente quando o Sergio colocou a bandeira no lugar.

Em um dos principais pontos turísticos também fomos surpreendidos com a simpatia deste povo. Chegamos quando o local já tinha fechado e o Sergio foi confirmar com o segurança se estava fechado mesmo. O segurança na maior educação explicou que havia fechado as 5 mas que amanha abriria novamente as 9 da manha. Então o Sergio agradeceu e explicou que amanha estou embarcando para Toronto logo cedo e... o rapaz abriu a porta para nós e disse: "vou do outro lado fechar o estacionamento e vcs podem entrar, quando sairem por favor fechem a porta que eu volto mais tarde para tranca-la."

Nestes poucos dias o que eu senti aqui foi que o ritmo da cidade é mais lento, mais tranquilo e as pessoas muito menos estressadas. As coisas funcionam como cidadezinha do interior.

E a presença do mar... bem o mar é fascinante... eu sou apaixonada pelo oceano e não tem como uma cidade a beira-mar ser feia. Sem contar os inumeros lagos que também cortam a cidade. Em todo lugar sempre tem um pouco de água refletindo as luzes da cidade: é lindo!!!

Hoje estamos completando o nosso tempo para nos tornarmos cidadãos canadenses. Foram três anos morando neste país, se adaptando, aprendendo e se apaixonando por esta nova vida que temos aqui. Mas hoje, eu acho que também reencontrei aquela imagem que eu tinha criado do Canadá, lá atrás, antes de ter chegado aqui: a imagem de canadenses super educados, simpáticos, prestativos, que nos recebem de braços abertos.

Há exatos três anos eu embarcava no sonho de morar no Canadá, deixando pra trás minha zona de conforto e encarando o desafio da imigração, indo realizar meu grande sonho. E hoje, me encontro aqui, em Halifax, dividida entre minha nova zona de conforto e a possibilidade de recomeçar num lugar genuinamente canadense.

Dificil decidir entre duas coisas que parecem tão boas!!! Ah se eu tivesse uma bola de cristal!!!

Mar 16, 2012

Comer é muito bom!

Que eu me lembre, eu nunca fui muito enjoada para comer. Talvez seja porque meu pai não gosta muito de coisas exóticas e minha mãe acabava sempre ficando entre o arroz-feijao-bife-salada ou arroz-feijao-frango-salada.

Mas de vez em quando ela variava e fazia umas coisas diferentes que eu amava como:

- pimentão recheado com carne moida.
- beringela a milanesa com molho de carne moida.
- bife de panela.
- bistequinha bem fritinha.
- carne com batata.
- linguiça com batata.
- sardinha à milanesa.

Tudo sempre acompanhado do arroz branco, feijão carioquinha (porque paulista que é paulista come feijão carioquinha) e salada de alface com tomate, pepino, couve de vez em quando.

Mas como deu pra perceber, carne era todo dia e eu confesso que ainda hj tenho dificuldade em preparar uma refeição sem carne. Sempre acho que está faltando alguma coisa.

O problema da comida da minha mãe é que ela sempre faz também legumes (como cenoura, beterraba, abobrinha, mandioquinha, jiló dentre outros) refogados ou bem cozidinhos e eu nao sei muito bem porque, eu detesto coisas refogadinhas. Aquela consistência meio molenga, que desmancha na boca, pode ser muito gostoso em um chocolate, mas quando se trata de legumes eu detesto. Conclusão: eu sempre acreditei que não gostava de cenoura, beterraba, abobrinha e outros mais...

Acontece que quando me casei eu percebi que quem pilotaria o fogão na minha casa seria eu, mas que o marido apesar de ser um zero à esquerda na cozinha (naquela época, que fique claro!!!), era um grande incentivador à mesa. O Sergio sempre comeu de tudo: qualquer gororoba que eu preparava ele comia e ainda dizia com sinceridade:

- Está bom, está gostoso sim!

Com o tempo eu fui aprendendo a diferenciar o "está bom." do "está bom!" e do "está bom!!!!!!". Mas não me lembro de nenhuma vez ele ter dito que não estava bom ou não ter comido (vc se lembra, Sé???).

E com este incentivador sempre presente, eu comecei me animar na frente do fogão. Eu confesso que tenho uma certa inércia na hora de começar a preparar o jantar, mas assim que acendo a primeira boca do fogão a inspiração aparece e até eu me surpreendo de vez em quando com algumas coisas que eu faço e que quase matam o casal de tanto comer.

Mas o bom de tudo isso, foi que aos poucos, eu fui experimentando receitas novas, vendo outras possibilidades para diferentes vegetais, testando coisas mais saudáveis por causa das crianças e descobri que eu AMO:

- arroz com cenoura.
- salada de beterraba ralada.
- abobrinha fritinha no azeite com alho ou gratinada com queijo.
- espinafre no arroz ou cru (espinafre canadense que é bem mais suave que o brasileiro).

E hj, depois de 11 anos de casada - recem completados e esquecidos :( - eu como praticamente de tudo. É raro o vegetal que eu possa dizer: "esse eu não como de jeito nenhum". Só preciso ainda testar o jiló, que nunca comi e que refogadinho como a minha mãe faz eu não tenho a menor vontade de provar, mas que de repente, em uma receita diferente...

Agora, de tudo o que a minha mãe faz, uma das coisas que eu mais amo é a alcachofra. É engraçado porque muita gente sequer sabe como comer este vegetal que eu acho MARAVILHOSO e que aqui em toronto é caríssimo!!! Mas sempre que eu encontro, eu dou um jeito de comprar e fazer recheada mais ou menos do jeitinho que minha mãe faz. E cada folhinha que eu como me traz uma lembrança maravilhosa da minha infância com minha família em volta da mesa da cozinha (só a alcachofra conseguia fazer todo mundo sentar à mesa, rs) molhando ora uma folhinha ora um pouquinho do recheio no molhinho de vinagre-oleo-sal.

Pra minha tristeza, este é o único prato que faz meu marido incentivador torcer o nariz quando eu sirvo o jantar. A sorte dele é que é dificil de achar, então eu acabo não fazendo muito!!

Mar 14, 2012

O mais novo da turma

Aqui na província de Ontario as crianças entram na escola no ano em que completam 4 anos (sem choro nem vela). Assim, a criança que nasceu em janeiro é a mais velha da turma e a que nasceu em dezembro é a mais nova.

As escolas não reprovam (pelo menos não declaradamente) e não existe negociação em relação a ida da criança para a escola. O Junior e o Senior Kindergarten (uma especie de jardim e pré-primário brasileiros) são opcionais, mas mesmo que vc resolva não colocar o seu filho de 4 aninhos na escola, quando ele entrar na escola aos 5 anos não vai para o "jardim" de infancia (JK), vai direto para o pré-primário (SK) e logicamente vai estar muito atrasado em relação às outras crianças que ficaram 1 ano na escola.

Desde a primeira escola que eu visitei por aqui, eu venho discutindo este sistema com todas as diretoras, professoras, auxiliares, faxineiras!!! E a resposta é sempre, sempre a mesma: "não se preocupe que ele vai ficar bem".

Minha preocupação é especialmente com o Eduardo. A Helena entrou no JK com 4,5 anos e ja estava mais do que preparada para a escola. No fundo, se ela tivesse ido direto para o SK teria se dado bem também. Ela vai ser até o final da sua vida escolar, uma das mais velhas da turma e eu acho isso muiiiito bom: ela está totalmenta amadurecida para a vida escolar e as vezes eu preciso dar uns "cortes" nela pra não ficar bitolada demais, rs.

A Luisa entrou no JK com 4 anos recem completados. Apesar de não ter a maturidade emocional da Helena, ela também está pronta para a escola e não vai ter grandes dificuldades.

Mas o Eduardo entrou na primeira série daqui com apenas 5,5, ou seja, se ele tivesse feito o JK no Canadá, ele teria ido para a escola com 3 anos e meio e eu acho que ele era muito novo. Aos 8 anos ele está terminando o terceiro ano primário e apesar de conseguir acompanhar o ensino, eu acho que o nivel de exigencia é grande demais para a maturidade dele.

Imaginem que ele completou 8 anos no dia 14 de dezembro e o amigo dele aqui da rua, completou 8 anos no dia 8 de janeiro. Os dois são iguais: passam horas brincando juntos, têm as mesmas bobeiras de menino, estao no mesmo momento de maturidade, só que um está no terceiro ano e o outro no segundo. Eu fico inconformada, porque um leva a escola com o pé nas costas enquanto o Eduardo tem que aprender coisas muito mais complexas. A quantidade de lição também é uma sacanagem, porque a do Edu é lógico que é bem maior, rs.

Mas nesta briga contra o sistema  eu perdi a guerra inteira e agora não posso mais lutar. Não dá mais para "reprovar" o Eduardo e faze-lo fazer uma serie novamente, então tenho que me conformar. É uma pena, porque a vida escolar dele poderia ser bem mais facil, mais relaxada se ele estivesse um ano antes. Mas tambem morro de orgulho do meu filho, que fez um esforço muito grande para alcançar este barco que corria rapido demais para ele e hj, ele consegue acompanhar o barco no meio da turma.

Mar 12, 2012

Aprendendo a ler em inglês

Aprender a ler em inglês é uma arte que exige muito trabalho. Não estou falando de nativos de lingua portuguesa que aprendemos o inglês como segunda lingua: estou me referindo às crianças. Eu acho que o português é infinitamente mais facil de aprender a ler.

Demorou um certo tempo pra eu entender que a memorização das palavras mais frenquentes funciona muito bem. Quando a Helena estava no Junior Kindergarten eu ficava meio revoltada de ve-la "memorizando" listas de palavras. Eu sempre ficava me perguntando se não haveria uma regra para facilitar as coisas.

Infelizmente as regras da lingua inglesa foram feitas para serem desobedecidas e tenho que dar a mão à palmatória: aquela memorização toda funcionou super bem com a Helena.

O que acontece é que muitas palavras na lingua inglesa não seguem as regras para a pronúncia e as crianças acabam tendo dificuldade para ler estas palavras pelo som. O que eles fazem??? Memorizam estas palavras de forma que sempre que aparecem em um texto as crianças as reconhecem imediatamente sem tentar usar nenhuma regra para pronunciar.

Em paralelo, eles vão ensinando os sons das letras. Existem varios exercícios para as crianças memorizarem cada som com musiquinhas e gestos. Sabendo os sons das letras as crianças podem pegar as palavras desconhecidas e tentar ler atraves do som.  Então as crianças começam lendo livrinhos cheios de sight words (que são palavras muito frequentes mas dificeis de ler através do som) com uma ou outra palavra mais dificil. Estas palavras que as crianças não conhecem, elas tentam ler através dos sons. Conforme as crianças vão se familiarizando com aquelas palavras, os livrinhos vão ficando mais dificeis.

Muitos destes livros vêm com uma letra de dificuldade que vai de A a Z. Sabendo o nivel do seu filho fica mais facil escolher livros que ele consiga ler mas que não sejam muito faceis.

Para crianças que ainda não lêem, como a Luisa (junior kindergarten) os livros repetitivos são muito bons. Normalmente estes livros têm uma frase que se repete pelo livro inteiro (que eles chamam de pattern) e uma figura que representa a ação que está acontecendo na frase:

Luisa esta lendo.
Luisa está cantando.
Luisa esta comendo.
Luisa esta dormindo.

Depois de ler duas vezes o livro para a criança, ela é capaz de ler o livro sozinha e elas memorizam aquelas palavras e as reconhecem em outro texto.

Eu e a professora temos usado varias estratégias para ensinar estas palavras mais frequentes para a Luisa:

- Na escola tem o clube 12 em que as crianças que memorizam 12 palavras (you, in, is, I, a, it, the, was, to, of, and, he) colocam o nome no mural da classe. Não preciso dizer que todo mundo quer entrar no clube, né?

- E quem entra no clube 12, começa estudar para o clube 22 (I, a, and, am, at, on, me, my, we, no, said, you, the, they, it, is, in, of, for, from, was).

- Em casa eu fiz cartões com as palavras, jogo da memória e quando lemos um livro nós procuramos pelas sight words no final da leitura.

Existem varias listas de sight words e varios sites com exercicios para ajudar as crianças a memoriza-las. Hoje eu entendo que o Eduardo perdeu esta parte do aprendizado da lingua, o que talves tenha dificultado seu aprendizado na leitura.


Patchwork

Eu sempre fui louca por patchwork: acho lindo demais. Quando eu era criança eu tinha uma colcha de retalhos que a minha avó fez há séculos atrás e eu a amava!!! É bem verdade que ela era feinha e escura demais, mas era literalmente uma colcha de retalhos, ou seja, meu pai era alfaiate, sobravam muitos pedaços de tecido e minha avó foi costurando tudo junto e fez a colcha.

Além de muito quentinha, ela era super pesada e eu sempre queria dormir com ela. Só muito tempo depois eu descobri que as colchas de retalho poderiam ser coisas muito lindas e delicadas e para minha surpresa, não eram feitas com retalhos, ao contrário: é mais dificil escolher os tecidos do que costura-los juntos.

Apesar da minha paixão, eu nunca me imaginei fazendo este tipo de trabalho porque não sei costurar à maquina. Sabe aquela história de que santo de casa não faz milagres??? Pois é, minha mãe é costureira e meu pai alfaiate, mas eu sei no máximo colocar a linha na máquina, rs.

De qualquer forma, sabendo ou nao costurar, eu resolvi que quero fazer patchwork e já comecei dar os meus primeiros passos: já tenho a maquina de costura, um cortador de tecido e já comprei meus primeiros tecidos para tentar fazer uma almofada.

Logo de cara eu já encontrei o primeiro obstáculo: fazer as combinações!!!! Infelizmente a coisa é mais complexa do que combinar uma roupa com o sapato!!! Existem infinitas estampas, tons, tecidos e acho que é preciso uma certa prática para conseguir enxergar as coisas juntas formando uma estampa agradavel.

Como estou apenas na fase de tentativa, resolvi nao arriscar muito. Fui ao Wal Mart, comprei um kitzinho com varios tecidos já cortados e que pretensamente combinam entre si e estou tentando montar um padrão.

Estou super ansiosa para ver o resultado e depois coloco uma foto aqui. Se eu perceber que tenho jeito pra coisa, vou começar a visitar as lojas de tecidos daqui. Deve haver uma técnica para se combinar os padrões, estampas, cores...

Pelo que tenho visto, a mulherada da america do norte é fera nesta técnica: elas fazem cada coisa linda, delicada, verdadeiras obras de arte. Não espero tanto de mim!!! Se eu conseguir fazer uma coisa bonitinha ja vou ficar bem feliz!

PS: o legal é que toda esta brincadeira me faz sempre pensar na minha avó e na verdadeira colcha de retalhos que acompanhou toda a minha infância e adolescencia.

Mar 9, 2012

Grosseria pode ser apenas tradução errada?

As vezes eu tenho a impressao de que algumas pessoas muito grosseiras na verdade não sabem falar inglês direito e acabam traduzindo sua lingua-mãe e mudando totalmente o sentido do que gostariam de dizer.

Há algumas semanas atrás eu tentei me aproximar de uma polonesa da escola das crianças. Ela só tem uma filha da idade da Luisa e a menina nunca participa de nenhum playdate (qd as crianças vão passar a tarde na casa do colega). Os pais trabalham e normalmente correm até a escola para pegar a menina e levar para a casa da avó.

Eu fico morrendo de pena da menina que só fica vendo a criançada indo de uma casa na outra e ela sempre sozinha. Cheguei para a mãe e perguntei se a menina não gostaria de ir na minha casa brincar com a Luisa e a Helena. A mãe vira e diz:

- Eu vou ver se ela está interessada!!!

Eu confesso que fiquei pensando nesta frase por varios dias sem saber ao certo se foi um talvez, se eu deveria insistir ou esquecer. Esqueci.

Esta semana o pai da menina veio todo sorridente para o meu lado. Eu chegava na escola e ele fazia questão de me cumprimentar, veio me perguntar se eu era brasileira ou portuguesa, falou do clima, da escola, da alergia que ele tem ao frio...

Eu achei toda aquela simpatia muito estranha... porque ele no máximo fala "bom dia" sem sorrisos.

Hoje finalmente eu descobri a razão de tudo. A mãe da menina veio me perguntar se as meninas não poderiam se encontrar no march brake para brincarem um pouquinho!!! E então marcamos que a menina vem aqui em casa na sexta-feira porque eu vou viajar a semana que vem (advinha pra onde????).

E agora eu pergunto: será que a moça na verdade não soube me responder, não soube o que dizer e por isso pareceu tão rude? E será que todo este povo mal educado que eu encontro por aqui na verdade tem apenas um problema de tradução errada???

Eu mesma respondo: não! Tem gente que é grossa mesmo independente da lingua. Porque eu já vi coisas que cair a cara e a pessoa foi extremamente grosseira sem falar uma palavra, rs rs rs.

Mar 7, 2012

Meu país é muito melhor!!!

Se tem uma coisa que é irritante em um imigrante é esta história de que tudo em seu país é melhor!!! De cada 10 imigrantes que eu conheço, 9 dizem que seu país é melhor: que a comida é melhor, que a educação é melhor, que o clima é melhor, tudo é melhor!!!

Eu as vezes me irrito um pouco com os próprios canadenses que não dão um "respostão" para estas listas de vantagens que os outros países têm em relação ao Canadá.

Se seu país é tão melhor "O QUE VC ESTÁ FAZENDO AQUI?" Volta pro seu país melhor!!

Hoje eu estava conversando com meu vizinho da eslováquia ou eslovenia (não lembro). Ele não cansa de listar as vantagens que seu país tem em relação ao Canadá. E não só o país dele: a Europa como um todo é muito melhor que aqui!!! A educação do país dele é muito melhor que a daqui! As pessoas do país dele são muito mais educadas e gentis que as daqui (provavelmente ele aprendeu a ser grosseiro com os canadenses!!!). Os governos governam melhor lá, até os onibus funcionam melhor!!!

Tudo no Canadá é ruim, é frio, é caro, é feio, é inseguro, é corrupto, é o que há de pior no mundo. E eu fico me perguntando por que continuar vivendo em um lugar tão inóspito?

Me incomoda muito esta visão um tanto deslumbrada que os imigrantes vão adquirindo conforme o tempo vai passando. As vezes eu acho que quando imigramos nós criamos uma ilusão de que  o lugar para onde estamos indo é perfeito. E então, quando os defeitos começam a aparecer, nós transferimos a nossa ilusão para o que tinhamos antes.

O mais difícil pra mim nestas conversas é não cair na risada quando começo recitar mentalmente a "Canção do Exílio" do Gonçalves Dias. Só agora eu consegui entender perfeitamente do que ele estava falando neste poema:

Canção do Exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."


Gonçalves Dias

Mar 5, 2012

Não se pode punir a verdade

Conforme as crianças vão crescendo, elas vão aprendendo que muitas vezes uma mentirinha inocente pode salva-las de problemas. Então, quando a mãe pergunta:

- Quem fez está bagunça na sala?

A resposta mais facil é:

- Não fui eu!

E assim, nunca foi ninguem. Assim como as brigas sempre começaram pelo outro, quem mexeu nas minhas coisas foi o outro e por aí vai... Além disso, como sempre tem crianças visitando a nossa casa, é super fácil colocar a culpa de tudo nas costas do amiguinho que já foi embora.

É um exercício de paciência e muito diálogo para faze-los entender que a mentira tem perna curta e que quando os pais querem sempre conseguem descobrir a verdade. Eu repito sempre que o tempo que vamos perder tentando encontrar a verdade é o tempo em que eles poderiam estar brincando.

Então hoje, fui dar boa noite para a Helena e achei o contorno dos olhos dela super avermelhados. Fiquei super preocupada olhando e quando perguntei se ela tinha passado alguma maquiagem, ela foi enfática em dizer que não.

Como uma amiguinha veio dormir aqui ontem, e elas foram dormir tarde eu comecei explicar a ela que ela estava com olheiras, que precisava descansar, e então ela vira e fala:

- Mamãe, desculpa mas eu menti. Eu subi no armário e passei a sua sombra.

É claro que eu fiquei brava porque eu tinha dito pra não mexer ali, alem de que é super perigoso subir no armário, mas não briguei com ela pela sinceridade. Só expliquei porque ela nao deveria ter feito isso e a parabenizei por ter contado a verdade.

Agora se a moda pega, vou ficar em maus lençois com a criançada fazendo coisas erradas e depois vindo me contar a verdade para eu não ficar brava, rs...

Placas de carro personalizadas

Já faz muito tempo que estou querendo escrever sobre isso porque tenho me divertido muito com o assunto.

Aqui em Ontário as placas novas dos carros das pessoas têm 4 letras e 3 números (XXXX 000). Sim, das pessoas, porque a placa pertence à pessoa e não ao carro. Quando vc troca de carro, vc simplesmente tira sua plaquinha do carro velho e coloca no novo! Bem, não é tão simples assim, tem que ir no "detran" daqui, mas deu pra entender, né?

Nosso interesse pelas placas dos carros começou quando o Sergio tirou a carteira de motorista canadense. A placa dele começa com BFxx 000 e ele sempre ficou tentando advinhar qual seria a minha placa porque eu estava demorando para tirar carta.

Pela minha demora, acabou sendo BKxx 000 e até hoje a gente fica olhando as placas e tentando descobrir em que letra está. A mais nova que eu vi aqui foi uma BN.

Mas alem das placas que seguem esta sequência, nós percebemos que existem umas placas diferentes, que saiam totalmente desta sequencia. Parece que as placas mais antigas tinham 3 numeros seguidos de 3 letras e algumas placas têm palavras, nomes de pessoas, datas, abreviações e então descobrimos que vc pode personalizar a placa do seu carro.

E tem de tudo!!!! A placa da diretora da escola das crianças tem um número e as iniciais do nome dela. Hoje eu vi uma placa escrita DIAS e um número. As vezes dá até curiosidade para saber o que levou a pessoa a escolher aquela inscrição.

Vejam o que tenho visto por aqui:

- SUMMER GIRL

- ILIVE2EAT

-A CAT 2

- BUGS LEE

- TELOMERS (coisa de gente da área de ciências).
- TROVÃO 4 (imagino que tenham pelo menos mais 3 trovões na província, rs).

- JAY HO (eu vi em Mississauga, pouco depois de ter assistido o filme, rs).

- TKT MSTR (que nós imaginamos ser "ticket master").

- ZOO MOM  (o que ela quis dizer com isso?).

- ROB FORD ( é a placa do carro do nosso prefeito.)

- VE3YER

- ULTRANOL

- EYER 1

- 16 NONO

- DANNY K

I BE ME

AV I JUDGE

- ESPIE

E tem aquelas que acabam formando palavras em portugues sem querer como:

- AMAR 647

- AZAR 407

- ANHA ( não lembro o número, mas é muito estranho!!!)

Aqui em casa ficar olhando as placas dos carros virou vicio: e eu até deixo papel e caneta por perto para anotar as coisas diferentes que temos visto. Também adoro ver as placas das outras províncias e dos estados americanos.

Com esta historia de placa de carro acabou até acontecendo uma coisa engraçada; como eu sempre presto atenção nas placas quando estou no trânsito eu acabei descobrindo sem querer onde uma amiguinha da Helena mora. Eu vi a placa do carro da avó da menina, gravei e depois vi a mesma placa na garagem da casa dela, rs.

Mar 1, 2012

Velhinhos independentes

Quando cheguei no Canadá eu confesso que me surpreendi com o número de idosos circulando por aí. Dependendo do horário, pra todo lado que eu olho só vejo pessoas acima dos 70 anos. E é raro vc ver os filhos ajudando os pais, ao contrário, os pais idosos é que muitas vezes ajudam os filhos que trabalham fora. Muitos vovôs e vovós da redondeza cuidam dos netos, vao buscar na escola e levam para as atividades da tarde.

Tem um shopping aqui perto de casa que é um ponto de encontro de idosos pela manhã: eu me sinto uma menininha fazendo compras lá!!!

E todo mundo dirigindo seu carrinho, carregando suas proprias compras e muitos até se ofendem se vc pensar em ajuda-lo! Por outro lado, eles adoram ajudar: vira e mexe algum deles vem correndo para me ajudar a abrir a porta do carro quando estou com as mãos ocupadas.

Apesar da maioria dirigir, eles também têm consciencia de que caminhar faz bem e muitos andam a pé, mesmo com o frio. Se as pernas já estão cansadas, eles usam suas bengalas sem nenhuma vergonha ou usam um wheel walker ( andador com rodinhas, como o da figura). Este andador é super legal porque alem de se apoiarem, ainda tem uma cestinha para eles colocarem a bolsa ou as compras. E quando ficam cansados, podem sentar um pouquinho.

Também é muito comum por aqui aquelas cadeiras de rodas automáticas. Eles andam pra todo lugar com elas.

E eu fico me perguntando porque os idosos aqui são tão ativos???

Será que é porque as ruas de Toronto são em sua maioria planas?

Ou porque a maioria dos carros aqui são automáticos?

Talvez seja porque as calçadas são feitas para os pedestres andarem (são largas, retinhas, bem acabadas, limpas e ai de quem deixar qualquer coisa na calçada que atrapalhe a passagem!).

Será que o fato de ter guia rebaixada em todas as esquinas também contribui?

Na verdade é um conjunto de fatores que fazem com que Toronto e região seja um lugar muito bom para se tornar um velhinho independente.

Mantendo o Português das crianças

- Mama, eu posso comer as sereias? - Acho melhor voce comer as cerejas!