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Cordão umbilical virtual

Cortar o cordão umbilical na maternidade é facil; pega a tesoura e pronto. Mas quando chega a hora de cortar este cordão umbilical virtual que liga os nossos filhos a nós... a coisa complica muito. Não tem tesoura real ou virtual que resolva.

O Eduardo acabou de completar 9 anos e eu me dei conta de que a Luisa tem a idade que ele tinha quando chegamos ao Canada, ou seja, ela não é mais um bebezinho... os três já estão podendo andar com as próprias pernas e eu não posso negar que a cada dia eles precisam menos de mim.

Hoje eu estava tomando banho e o Eduardo foi perguntar se podia preparar morango com açucar para as meninas. Ele mesmo lavou os morangos, tirou as folhinhas e colocou açucar. Da mesma forma eles já sabem servir o suco, colocar a comida no prato e até esquentar no microondas. E o que não fazem é muito mais porque eu não deixo do que por falta de habilidade ou vontade de aprender.

A cada dia eles querem mais independência e mesmo sem querer, eu fico inventando maneiras de prende-los a mim. São coisas totalmente involuntárias que eu acabo fazendo para não deixa-los ir e minha luta diária não é para eles não irem: é para eu não tentar segurá-los.

Já faz mais ou menos 1 ano e meio que o Eduardo está vindo comer em casa na hora do almoço. E agora que a Helena está na primeira série, ela tb fica periodo integral na escola e vem almoçar em casa. Este "home for lunch", como é chamado aqui, me deixa maluca e na maior correria. Eu deixo todo mundo na escola de manhã, volto para casa e começo preparar o almoço. As 11:05 eu tenho que pegar a Luisa e as 11:35 o Eduardo e a Helena para almoçarem em casa. São 30 minutos perdidos porque não vale a pena vir para casa e já ter que voltar, então eu fico lá na frente da escola esperando:  e a Luísa tem que esperar comigo.

Tem dias que é legal, ficam outras crianças brincando e eu fico conversando com os pais. Mas tem dias que todo mundo vai embora e a gente fica essa meia hora no carro, sem ter muito o que fazer. Quando eles saem temos que vir correndo para casa porque as 12:30 eles têm que estar de volta. De fato, eu fico das 11:05 até as 12:30 só em funçao de pegar criança na escola e dar almoço. E a Luisa, coitada, esperando junto comigo ou indo de lá pra cá o tempo todo.

E quando penso friamente na necessidade de traze-los para almoçar em casa, eu percebo que para eles não faz diferença. Tem dias que eles comem super bem, tem dias que não comem nada. Mas demorou para eu aceitar que na verdade quem precisava deles em casa, era eu. Quem precisava almoçar junto, era eu. Quem sentia saudades e vontade de saber o que estava acontecendo, era eu.

E no fundo, eles estavam perdendo muitas coisas: perdiam um preciso tempo para brincar na escola, perdiam a convivencia com os amigos, perdiam a chance de aprender a se virar sozinhos, organizarem o tempo das coisas...

No final de 2012 eu finalmente fiz como resolução de ano novo "lunch at school" ( almoço na escola) Conversei com o Edu e a Helena e combinei que a partir do dia 7 de janeiro eles iriam passar a almoçar na escola e que só eventualmente eu os traria para casa.

Eu não perguntei o que eles queriam, eu avisei o que aconteceria. O que eu percebi foi um certo alívio da parte deles de não ter que me "magoar" dizendo que preferiam comer na escola. Os dois aceitaram essa história sem nenhuma reclamação.

Por enquanto, estou mantendo minha resolução sem criar desculpas para nada. Eles têm comido pouco na escola e chegado em casa famintos, mas se não comem e passam fome à tarde é uma escolha deles e eles precisam aprender a gerir isso.

Eu ainda morro de saudades dos nossos almoços animados, mas estou compensando esta falta com um lanchinho bem caprichado no final da tarde. Aos poucos eu estou aprendendo a cortar este cordão umbilical.