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Quando em Roma

Se há uma coisa que meus pais me ensinaram foi como se comportar na casa dos outros. Acho que eu até exagero e acabo deixando o dono da casa meio constrangido porque fico meio engessada, mesmo na casa do meu amigo mais intimo.

E quando estamos falando de outro país, outra cultura e muitos povos diferentes vivendo no mesmo lugar, estas regrinhas são ainda mais importantes e eu procuro obedece-las ao máximo e ensinar minhas crianças a fazerem o mesmo.

Desde que chegamos no Canadá nós pegamos o costume de tirar os sapatos para ficar dentro de casa. Alem de manter a casa mais limpa, nós tb queríamos que as crianças tivessem este habito para não fazerem feio na casa dos outros. Os canadenses têm este costume e eu sempre ficava imaginando meus três porquinhos entrando na casa da vizinha com suas botonas cheias de lama e gelo...

Eu tb acho errado quando chega um brasileiro para visitar o Canadá e as pessoas não avisam deste costume. Fui na casa de uns amigos e tinha uma brasileira sentada no sofá com sua botinha no pé. Ela ficou super constrangida quando viu a minha família inteira tirando os sapatos na porta. Acho que é nosso dever avisar para que as pessoas não saim cometendo gafes por aí.

Então eu recebi uma visita aqui em casa por alguns dias. Sabe a namorada-do-neto-da-amiga-da-vizinha-da-sua-mãe???? Aquela pessoa super próxima, que vc tinha visto uma vez na vida e falado bom dia (talvez?)? Então, ela veio conhecer o Canadá e eu acabei aceitando recebe-la aqui em casa.

Foi uma experiência ótima, inesquecível e que não vai se repetir mais!

Assim que ela chegou nós mostramos onde ela iria dormir, demos toda liberdade para a moça e avisamos que a gente tira os sapatos dentro de casa por causa da neve, da chuva, bla bla bla...

A fulana não só andava de sapato pela minha casa, como o sapato estava sempre molhado (choveu muito) e tinha salto. Ela passou uma semana andando de salto alto pela casa. Aliás, ela não trouxe um chinelinho, um sapatinho que nao fosse social: só salto alto!

Seus horários tb eram de muita consideração: ela levantava as 8:30 para tomar café, depois descia para o basement e ficava dormindo até meio dia e depois do almoço ficava emburrada quando eu não podia leva-la nos lugares que ela queria ir. Aliás, ela ficava emburrada por qualquer coisa: varias vezes por dia.

E quando eu generosamente a levava a algum shopping ela fazia cara de nojo, como se estivesse vendo roupas das barracas de rua da 25 de março (roupa usada!). Mas eu sou paciente e continuei ciceroniando a moça pela cidade, levando aqui e ali nos horários em que eu podia.

Um dia ela pediu para ir buscar a Luisa na escola comigo. Eram 10:50 e a Luísa sai as 11:05. Eu falei:

- Fulana, eu tenho que sair.

E ela foi para o basement retocar a chapinha. Eu chamei de novo as 10:55 e ela continuou retocando a chapinha. Às 11:00 eu saí e fui voando para a escola: cheguei um pouco atrasada, tive que me desculpar com a professora... aquelas coisas... e depois ainda tive que aguentar a cara feia da fulana e sua chapinha perfeita! Nunca mais quis ir até a escola das crianças.

Felizmente, no último dia ela chutou o balde, mas como era último dia eu mantive a pose e engoli o desaforo. Estávamos indo em algum lugar que ela queria conhecer. Ela olhando o notebook no carro (sem internet) começa cantarolar:

- Eu quero iiiiiir embora, eu quero daaaaar o foraaaaaa...

Cantava só este trecho e em seguida repetia o mesmo trecho: varias vezes e fingindo que estava lendo algo no note.

Conclusão: além de ter estragado minha semana, ainda me faz lembrar dela quando ouço esta música que eu gostava tanto!