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As pessoas que passam e não passam nunca!

O médico que fez o parto dos meus filhos é uma daquelas pessoas que entram na nossa vida para não sair nunca mais!!! As vezes é até meio estranho para algumas pessoas, o carinho que eu e o Sergio temos por ele, mas ele realmente merece!

Nós nos conhecemos de um jeito um tanto diferente. Quando eu estava terminando a faculdade e já namorava com o Sergio por quase 2 anos, resolvemos que estava na hora de pensar em nosso casamento. Eu não queria voltar para a casa dos meus pais, já estava com quase 30 e não tínhamos mais porque ficar enrolando.

A primeira coisa que eu fiz em direção ao casamento foram exames pré-nupciais! Que nada... eu fui fazer um teste porque não tinha certeza se já tinha tido rubeola na vida. Não tinha e tive que tomar a vacina.

O grande problema é que a ginecologista que me atendia no Hospital Universitário da USP (HU) era uma besta! Grossa, insensivel e atendia varias mulheres ao mesmo tempo (Sim, cada uma ia falando o problema que tinha e ela já fazia uma espécie de triagem, mandando algumas embora com uma receita na mão sem sequer olhar para a cara da paciente).

No dia em que fui levar o resultado dos exames de sangue e pegar a requisição para as vacinas, estava lá esperando a infeliz me chamar e comecei conversar com duas gestantes que tb estavam esperando (seus bebês e o médico). As duas não paravam de falar do Dr. Paulo!

- "Ele é simpático"  "ele é gentil"  "ele é atencioso"  "ele é competente" "ele é bem humorado" "ele é bonitão ótimo médico"

De repente, uma delas foi chamada e eu fiquei prestando atenção! O médico que a chamou foi super simpático mesmo, com ela e com outras pacientes que ele reconheceu e quando eu saí da minha consulta rapidinha-cheia-de-testemunhas, a outra gestante ainda estava esperando a sua vez!

Anotei o nome dele e prometi a mim mesma, que na minha próxima consulta com ginecologista eu tentaria passar com ele.

No ano seguinte, quando fui fazer meus exames de rotina, marquei uma consulta com ele e me apaixonei gostei muito! Como fui fazer mestrado na USP, continuei tendo direito ao HU e continuei passando em consulta com ele. Comecei tentar engravidar, achamos que tinhamos algum  problemas, ele pediu  varios exames e nao encontrávamos nada errado. Até que ele pediu um exame, que segundo a enfermeira do próprio HU, era super dolorido.

"Ai meu bem, este exame doi tanto!"

Eu entendo que ela estava preocupada comigo, mas foi meio assustador esperar a próxima menstruação para fazer o tal exame. O tempo foi passando e a menstruação nao veio, ao contrário, veio umas sensações diferentes, um teste de gravides, depois mais 5 testes para confirmar e eu não precisei fazer o exame!

Voltamos super contentes para o inicio do  pré-natal e descobrimos que o Paulo poderia ser o meu obstetra, mas não poderia garantir que estaria de plantão no dia do meu parto.

Eu e o Sergio ficamos mudos! Como assim? No dia mais importante de todos, poderia aparecer um fulano qualquer para fazer o parto? Fomos para casa super decepcionados e decidimos fazer o pré-natal com o Paulo em seu consultório particular.

Voltamos ao HU para outra consulta decididos a pegar o telefone e endereço do consultório dele, mas a tarefa não foi muito fácil: ele simplesmente se recusava a nos aceitar em seu consultório. Para ele, seria muito anti-ético tirar uma paciente do serviço público e passa-la para o consultório particular. A discussão foi demorada, ele nao se convencia e nós nao aceitávamos, até que demos a cartada final:

"Ok, vc não precisa dar o seu endereço! Não vamos mais fazer o pre-natal com vc! Vamos procurar na internet o endereço e telefone do DR. Paulo M.  e marcar uma consulta!

Não tinha jeito: nós queríamos ele no parto das crianças e ele sabia que não íamos desistir.

O Paulo foi um médico-irmão (temos quase a mesma idade). As nossas consultas (desde o tempo de HU, diga-se de passagem) eram longas e divertidas. Ficávamos mais de 2 horas batendo papo, contando histórias das nossas vidas, discutindo política, o Brasil, a USP, o mundo. A secretária já marcava para mim o último horário porque sabia que o negócio ia longe e provavelmente não ficava muito feliz quando tinha que esperar a consulta acabar.

Os partos também eram recheados de bate-papos. Enquanto eu rolava de dor e mordia a lingua para nao mandar aquele pessoal calar a boca, ele conversava animadamente com o Sergio sobre previdência privada, ou comentava com o anestesita e a auxiliar, a aparência daquela colega de turma que era tão bonitinha no passado!

Apesar de acreditar piamente que a cesária era a melhor escolha, o Paulo sempre respeitou a minha vontade de ter filhos por via vaginal. Eu aceitava a anestesia, aceitava a episiotomia, mas queria muito a experiência do parto "normal" e ele fez o possível e o impossível para realizar a minha vontade. No parto do Eduardo, ele chegou as 8 da manhã na maternidade e lá ficou até as 4:35 da tarde, quando o Eduardo finalmente decidiu nascer.

No parto da Helena eu fui fazer um exame na maternidade as 10 da noite e as 11, lá estava ele me mandando embora já que estava tudo bem! Estava tão bem que comecei sentir contrações quando tentei me levantar e ele ficou lá comigo até  à 1:56 da manhã a Helena veio ao mundo no primeiro "push" (empurrão), como dizem aqui.

E no parto da Luisa, ele tb chegou cedinho na maternidade para induzirmos o parto e ficou até as 4:02 da tarde, quando ela nasceu, tb com um único push (eu já estava super experiente nesse negócio)!

Lembrando que foram 3 gestações em 5 anos e meio, nós tinhamos overdose um do outro, porque além das consultas de pré-natal, pós natal, ainda tinhamos as consultas de rotina entre as gestações, rs. Sem contar, que ele nos indicou o pediatra dos filhos dele, que nos indicou um dermatologista, que nos indicou oftalmologista, clinico geral, otorrino e todo mundo conhecia todo mundo e conhecia a gente: os malucos que tinham filhos um atrás dos outros e estavam se preparando para largar tudo e ir embora para o Canadá.

E o Sergio também ficou super próximo a ele porque participou de todas as consultas, todos os bate papos, toda essa história!

Minha última consulta com o Paulo, foi mais ou menos no final de fevereiro de 2009. Nós já estávamos com passagens compradas para nossa partida e foi uma despedida muito difícil, devo dizer. De repente aquela pessoa que sabia tanto de mim, não ia mais estar ali, ao alcance da minha mão, quando eu precisasse de alguma coisa.

Eu sei que é difícil entender este relacionamento meio pessoal demais com um médico: talvez nem ele mesmo consiga entender a falta que ele fez e faz na nossa vida, mas dizer adeus foi muito dificil.

Há algumas semanas, minha cunhada passou em consulta com ele (por uma daquelas coincidencias da vida) e ele perguntou de nós. Mandei um e-mail para ele contando um pouquinho da gente e ele, claro, muito gentil como sempre, me mandou noticias dele e da familia. Pediu também uma foto das crianças e estou na maior dúvida de qual foto mandar. Quero mostrar como estão lindas as crianças que ele colocou no mundo: afinal, ele foi a primeira pessoa que segurou os maiores amores da minha vida. Cada detalhe destes momentos, cada brincadeira, cada emoção, estarão guardados para sempre na minha memória. E a generosidade e profissionalismo desse médico vão fazer sempre parte da história da vida dos meus filhos.